Domingo, Abril 13, 2003
Life is not fair
Hoje foi um daqueles sábados que parecem mais com segunda-feira. Eu estava no mood do Garfield, talvez. Ainda me recuperando do nó na garganta e da febre repentina que vez por outra me faz ter a sensaçao que a morte anda seguindo meus passos- aquele calafrio que não se explica.
Como nao brigo e nao temo, sigo normalmente sentindo o frio e a febre e a incomoda dor na garganta e nas costas. Diante disso, o sol la fora fica como um desejo ou um sonho postergado. Mais um. Soluçao"filme na tv"pra embalar o cansaço pra lá de grego.
E ai, pego uma cena clássica:- um pai vai até a escola pra se despedir da filha de sete anos. Diz que vai ter que viajar e que vai sentir falta dela. A menina, que ja nao ve o pai com tanta frequencia, com os olhos cheios de lágrimas, retruca:- mas eu ja sinto sua falta todos os dias. É preciso que voce vá mesmo se mudar? Isso não é justo...
E ele, meio sem graça, tentando desfarçar o sentimento de dor na despedida responde:'You know, sometimes life is not fair".
Fiquei com esse dito na mente. E vi mais tarde, outra menina, com a cabeça deitada sobre a mesa, sentindo frio, quase adormecida, segurando o telefone celular, e um prato de comida coberto com guardanapo.
Senti o abandono dela por instantes e fui procurar falar com ela.
Hi! are you cold?
-Yes, ela responde. Me olhando meio espantada e surpresa com alguem se interessando por ela.
What are you doing here?
- I am waiting for my dad.
O filme voltou à minha mente. E naturalmente, a convidei pra entrar no restaurante e ficar na minha mesa. Estava mais quentinho. Ajudei a pegar as coisas sobre a mesa e ela me seguiu sonolenta...
Ja sentada, dei meu sueter pra que ela se aquecesse. Coisas simples, que passam despercebidas, quase sempre.
O pai, estava tocando bateria no local. Distraído da vida, talvez o suficiente pra nao perceber que a filha deveria estar cansada etc..
Mais uma daquelas pessoas que fatalmente endossariam o "quote"de que sometimes life is not fair.
E o que será que fazemos pra acabar com isso?
Sim, é tarde, eu sei, mas não deixo de fazer a minha parte. No que depender de mim, the fairness se instala na vida hoje e sempre.
Será que tem mais alguem ai do outro lado?
E pensar que as pessoas esperam justiça num mundo onde os valores básicos estao sobre o dinheiro, os laços de sangue, quando nao sao ignorados, e os sobrenomes e suas possiveis heranças...
Tsc, tsc, tsc, onde vamos chegar com esses principios?
Nao priorizo o dinheiro, jamais consegui. Nao priorizo laços de sangue, nem dou importancia a sobrenomes e quetais.
Estou aqui de passagem e faço questao absoluta que essa passagem seja fair e irreversível.
Se nosso convivio social/cultural é baseado num jogo, nao gosto das regras desse jogo, e nao gosto de joga-lo .
Deve ser por isso que escolhi nao ter descendentes e nao fazer parte da moda, de forma geral ou específica.Isso faz parte do jogo a que me refiro: em primeiro lugar o dinheiro, depois a familia, e de preferencia aqueles que "tem um certo status"pra fazer parte dos laços de familia, ou de sociedade. E haja extratificaçao etc..
Como costumo dizer, quando dá: ser humano dói.
E pensar que quase ninguem nota de tanto entorpecente e tanto analgésico...
Até onde vamos disfarçar a dor?
Como diz aquela cançao:- Entao disfarçar minha dor ja nao consigo, dizer que nós somos bons amigos, é muita mentira para mim...
Será que vou acabar afirmando sem querer que "life is not fair"?
E pensar que se for verdade que cada cabeça é uma sentença, sao alguns bilhoes de sentenças por ai afora, nesse mundo sem dono, todo cortado em pedacinhos e cheio de certificados de propriedade e escrituras de poderes vários.
O que é mesmo justiça? já não sei mais...
Sandra Paes - 01:15 AM CST [Link]