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Terça-feira, Maio 20, 2003

Pensando bem...

Amanhece preciso ir...meu caminho é sem volta e sem ninguem...
Esses versos dessa canção giram na minha cabeça. Prenúncio de partida, viagem, tudo bem. Agora, essa coisa de caminho sem volta e sem ninguem, me lembra a reportagem sobre depressao que li na revista Época.

Virou tema da semana, sem que nem pra que. A revista me foi enviada do Brasil de presente. Domingo à tarde, clico o controle remoto da TV e me deparo com uma reportagem especial sobre o "report médico"de M. Monroe. A luta contra uma depressão cronica, herança materna? who knows for sure?

E ainda ontem me aparece uma cliente nova- sintomas de depressão à mostra.

O que leva alguem a so ver o lado escuro da lua? como diria uma amiga poetisa que falesceu, e tambem era uma deprimida.
Não sei. Mas dizem é assim que os deprimidos enfocam a vida ou o que assim se traduz:- uma tendencia a focalizar o que é negativo, o caminho sem volta e sem ninguem, ausencia de luz no fim do túnel, ãs vezes nem isso.
E guardam pra si. Há uma tristesa que não permitem aflorar. Não se pode chorar, ficar triste, deixar que a emoçao se manifeste. Ha que se ser forte e reprimir essas coisas. Tem até os que sentem vergonha de serem vulneráveis e pedem desculpas por que se emocionam. Ja viu isso?

Como é se envergonhar da gargalhada? como é se envergonhar dos olhos mareados, da onda que sobre dentro do peito e comove? como é escolher reprimir o que se move?
Do desejo à expressão dele? De onde brota isso?

Tanta censura interna, so pode ser coisa aprendida. Tanta censura pela propria natureza, so pode ser por repressao condicionada. Talvez por que as "circunstancias"não favorecem a expressão. Ou nada disso.

So para exemplificar como a vida pode ser curiosa em termos de riscos emotivos:= nesse domingo, dois comunicados. Um deles,aniversário de um amigo e sua mulher convida para um jantar íntimo. Decido lhe preparar a sobremesa favorita. No ritmo desse embalo, outro telefonema:- Estou te ligando pra te dar uma má noticia, ouço.
Ao que respondo:- mas não tenho siquer o direito de escolher se quero receber primeiro as boas noticias? e depois as más?

Penso logo que, ai nao tem gancho pra depressão. É e sempre foi minha escolha, o que é bom. Já disse várias vezes até aqui, que não gosto de drama. Esse papo onde se aponta uma vítima e um culpado, nao me atrai.

Aquele teatro das cortes judiciais, exatamente isso. Que coisa mais patética!

Enfim, a má noticia é que havia morrido um amigo. Mesmo dia, um partida e uma celebraçao de ficar aqui- aniversário.

Dicotomia. Falar com a viúva, ouvir outros telefonemas dramáticos em torno da partida do amigo, e ao mesmo tempo tendo que preparar uma sobremesa para uma festa. Sim é ao mesmo tempo. É no mesmo dia. O corpo produzindo atençao e hormonios pra atender `as duas demandas. Tristesa e alegria. Irmãs que passeiam no mesmo tobogã.

E eu, que nao gosto de montanha russa e seus afins, ali, olhando pra tudo aquilo, como sempre fiz desde menina, contemplando o que de fato sentia e como as pessoas expressavam ou não suas emoçoes diante de dois fatos. A morte e o renascimento.

E cá com meus botoes:- E não é a mesma coisa?

Se voce acha que não aposto que lida mal com alegria e tristesa e acaba por reprimir ou uma ou outra. Pra que? elas apenas traduzem la dentro, como lidamos com nossa propria viagem ou estadia aqui nesse lindo planeta azul.

Pense bem...

Sandra Paes - 08:16 AM CST [Link]