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Sábado, Junho 21, 2003

Assalto


O Rio me assalta. Não por ladrões. Os vigilantes dos dinheiros e posses. O Rio me assalta a alma. Me tira o folego e me convida a reaprender a respirar. Os convites que me avassalam as emoçoes sao tantos que me quase me rendo. Resto. Aprendi a exercitar a invisibilidade nos USA. Aprendi a gostar de uma especie de transparecia corporal, social, comunitária. Percebo a demanda de solicitaçoes, de vida e especulaçoes em torno de tudo, da política ao crescente número de programas de TV falando sobre tudo, de cinema a doenças psiquicas.
Tanta riqueza, tanta possibilidade, tantos hormonios no corpo dessa naçao que se mantem jovem, cheia de medo e esperança.

Vejo os reporters falando que as pessoas saem de casa com um acompanhante constante: o medo.
Isso me assalta. Ainda saio na minha invisibilidade. Ainda convivo com essa essencia que pulsa e explode meu coraçao já nao tao forte pra tanta ginástica.

Iogo todos os dias a cada passo a cada esquina. O Tibet tambem é aqui, aqui tambem é lugar de se exercitar o monastério, a multiplicidade de cores e formas, os sons nos bares, as ondas que se chocam em ressonancia a cada esquina, das comemoraçoes juninas, a um nao sei o que onde o carioca surfa, em meio a mulheres apaixonadas e toda essa demanda emotiva como se a vida fosse feita apenas dos dramas e seus sobressaltos.

Ha ainda um gosto pelo tobogã, um continuo prazer no excitamento epitelial da busca frenética por paixoes quase vãs...

Meu plexo solar pula quase sempre. Sinto a onda nos rins, localidade de medo e transtornos que circulam pela cidade em suas curvas e montanhas sedutoras.

Essa mulher que ri, e que chamam Rio de Janeiro, ou cidade maravilhosa, como queiram, abraça a todos que pulsam continuamente nesse ritmo não mais frenético, ainda muito sedutor e sensual, linguagem que jamais se esquece por ter se vivido nela por tantos anos e temas.

E eu deixo de existir de novo nesse espaço que so me toma de assalto e nem julgo e critico, apenas constato.
Sem duvidas, meu coraçao bate diferente, meu pulso revela um outro pulsar, como se entrasse numa nova dimensao e nem sei o que..
Dia desses, quem sabe...

Sandra Paes - 01:20 PM CST [Link]

Terça-feira, Junho 17, 2003

Órbita


Contemplo a lua em seu volteio.
Daqui, de minha cama na varanda, fico com a sensaçao de que os carros atropelam meus sonhos e defragmentam as moleculas de suas possibilidades.

Às vezes é assim com pessoas que parecem invadir os átomos de meu plexo solar e desalinham as moleculas de meu ventre, modificam a estrutura de minhas vísceras e me deixam quase que sem corpo e sem rumo.
Ca, entre nós, parece não haver espaço sideral e às vezes eu urjo.
Apenas o desejo de orbitar linda e majestosa como a lua, que penso, orbita la no ceu, em volta da terra.
Essa harmonia, ao que parece, é so sobre relaçoes entre os corpos celestes.

Nos humanos há essa mistura e contunuo afetar, que dizem, parece ser da ordem das emoçoes e suas esferas.
E toda essa gama de não-sei-o-que, que escorre de todas essas tentativas de encontros, esbarros e quase nenhum espaço gravitacional.
ACHO QUE NÀO QUERO MAIS PINTAR OS CABELOS.

Sandra Paes - 06:31 AM CST [Link]

Segunda-feira, Junho 16, 2003

Que horas são?

Depois de ser acordada por esta dor no peito que me desperta vez por outra. Depois de perceber que estou em minha cidade natal. Depois de localizar o charka do coraçao e fazer a oraçao que me veio no momento. Depois de ter um desfile de possiveis rostos e suas expressoes em minha mente, depois de respirar profundamente ao mesmo tempo em que ouvia alguem conversando nas ruas em alta voz. Depois de perceber que está frio e ainda é noite, escolho fazer um café. E só entao me veio a mente: que horas sao?

Nao tenho um relogio que funciona na cabeceira da cama, nem tenho um na cozinha, o de pulso nao sei onde está. Entao, fazer café.
Hummm, coisa boa. Primeiros goles, a privacidade do silencio parece um privilegio so meu ao constatar que todos dormem, alhures.
Aqui, ja planejei a semana, o dia, a conta do banco, os telefonemas, as conversas possiveis e impossiveis. Tudo isso enquanto ainda estava deitada apenas sentindo um coraçao que insiste em doer.

Pausa pra pegar o pao e o computador. Preciso escrever um pouco. Faz tempo…e de novo, que horas sao?
Tem sido assim, o relogio e controle do tempo sempre aquem da vivencia, do sentir, da açao. As horas andam atras de mim, ao contrario de todos aqueles que vivem dizendo que correm atras do tempo ou coisa assim.

Mais uma razao pelo qual sei nao ser desse mundo. Memoria pra mim nao é coisa de passado é sinal de atençao. O fazer nao é ditado pelo tempo de produçao mas pelo sentir da açao. O pensar é muito veloz e nada disperse. Trago uma mente com foco especifico e até gosto disso.
Sobra o que? Ah, sim, olhar o relogio no computador. Virou curiosidade a essa altura.
Pra que mesmo? Nao estou medindo nada nem controlando quanto fiz, pensei, senti e em quanto tempo…entao?!
Ah, o pao ficou pronto!
Delicia! Pao quentinho, queijo de minas, café com leite…quem disse que tem que ser café da manha? Ainda é noite la for a.
Meu sistema biologico aponta outra direçao.
Entao vejamos…tchan, tchan!

O que? Quatro e meia da matina?!
Claro, horario de Miami. E daí se estou no Rio de Janeiro.
Bem da verdade nao vou mesmo saber quanto tempo levei entre acordar e todas as outras coisas..que vicio modernoso mais bobo esse de controlar o tempo.
Nem que eu fosse uma atleta disputando décimos de segundos para subir no podium. Nem que eu fosse uma funcionaria daquelas que batem o ponto e se pensam avaliadas por ai( ja foi o tempo). Nem que eu tivesse medindo a hora de sair do plantao, do castigo, de qualquer coisa.
Será que isso é sinal de liberdade ou de um espirito livre que nao se contem no proprio corpo fisico e suas fisicalidades?
Sei lá…
So sei que nada sei e que as horas ainda correm atras de mim. Até quando?
Dormir, sonhar..estou sempre com a sensaçao que estar acordada é meu tempo de sonho e pesadelos. Estive dormindo e lucida, viajante por mundos oniricos onde tudo me parece ser de fato real e me lembro de meu ultimo pensamento antes de apagar depois de um filme longo na madrugada:- ah, como me cansa esse mundo de ilusoes?!
Madrugada? Mas é madrugada? Sim vi longos filmes e perdi as horas antes de dormir e talvez por isso estivesse procurando por elas depois de meu healing, pra mim, matinal.
Meu coraçao foi hoje meu despertador, apenas pra me lembrar a voz unica de Billie Holliday em”good mornig heartache”.

Claro que adaptei o título. Afinal nao é isso que fazemos sempre na ilusao de que recebemos mensagens e passamos outras?

Sei la…
Esse silencio do digitar no pc me inspira mais por que nao tenho que ouvir sons que seriam ou poderiam marcar matematicamente um ritmo no espaço e no tempo. Coisas captaveis apenas para os que sabem ler ou decodificar essa sifra numerica em forma de fonemas.

Super!
Os olhos podem analisar sons codificados, por que afinal, letras sao apenas combinados de sons que codificamos e palavreamos e damos valores em tempos e espaços finitos.

E la vem de novo…

Que horas são?

Um dia vou saber responder a isso. Nao hoje. Fica o tema para meus estudos sobre o tempo nesse planeta, irmaos de Orion…


Sandra Paes - 05:15 AM CST [Link]