Sexta-feira, Julho 4, 2003
Queda de conexão
Há dias esse “issue”. Linhas telefonicas que despencam e a conexão no computador se vai. Descubro tambem que a bateria de meu laptop não se sustenta por muito tempo.
Coisas que começaram a acontecer aqui. Constato a frequencia e observo que queda de conexão nao ocorre só para internet. Ha uma quebra de continuidade nas falas, nos encontros, nos compromissos.
A palavra vira adereço apenas. As ideias não se frutificam por que perdeu-se, ao que parece, a noçao do poder da palavra. Ha uma dispersão no ar para alem do espirito carioca que sempre foi mais ligado ao corriqueiro”entao tá a gente se ve por ai”.
Levei dias pra processar essa informaçao. E cada vez que paro pra ver onde há ou nao uma conexão vejo fios descapados e uma energia nova de tentativa de ostentaçao de algo que de fato não existe.
Não, não é hipocrisia, é algo além. Uma negação tambem negada, uma posiçao sem base, apenas a mascara do “”body of pretention”. Isso justifica a invasão no plexo solar que passei a experimentar quando cheguei ao Rio.
Como sempre, preciso perguntar algumas vezes quem é Helena, até ter que descobrir que a nova novela traz nomes e configuraçoes que se confundem com a casa, o dia a dia de muita gente que realmente passam a viver a incorporar o drama da telinha como se fosse coisa de suas proprias vidas. O estranhamento dura pouco. Tenho que trabalhar o foco e começar a distinguir personagens de novella de pessoas reais. Dramas inventados e escritos por dramas reais. Na ausencia de conexão do self real, fica o imaginário ficticio e uma ausencia de contacto verdadeiro.
E isso parece ser o normal. Isso parece ser o vigente. Navego por esfumaçadas conversas, onde não existe realmente interlocutores, apenas atores representado uma fala ou cena previamente marcada. Quase me sinto numa cidade fantasma, ou numa cidade cenário.
Novelar é mais importante que viver. Pior, novela passa a ser o link de realidade possivel para traduçao de emoçoes e suas linguagens. Me preocupa a hipocondria difundida e consentida pela tv. Sustentada pela justificativa falsa, e tambem ilusoria de se correr atras sempre…Todos respirando mal e correndo tentado se conectar de alguma forma.
E o que é pior, as pessoas que viram personagens e se identificam com os atores e seus personagens, parece, nada percebem. Assisto aos programas de televisao e entrevistas e confirmo o que vejo.
Há uma direçao invisivel de cena e todos parecem atender cegamente a esse comando.
Reflexão, análise possível de caminhos, de qualidade de relaçoes, parece estar à deriva.
Diante do tradicional”se Deus quiser”ou quem sabe eu dou sorte, as pessoas vão levando sua vida de forma sísifica sem conseguir perceber onde ha ou não uma conexão real e como sustentar isso e com que finalidade.
Ë mais do que um ciclo. Ë mais do que uma forma de viver ou sobreviver, é uma ausencia de presença total e isso é alarmante.
Depois voltarei a esse circuito. Por enquanto apenas registro a descoberta.A televisão se tornou o espelho da modernidade.
Sandra Paes - 10:14 AM CST [Link]