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Sexta-feira, Julho 18, 2003

Quebra de silencio

Recentemente consegui ver o Saia Justa. A principio um programa de TV, ou uma proposta de falar sobre assuntos que deixam as pessoas em situaçoes aparentemente dificeis. Mas nao fica apenas aí. Para muitas a expressao é praticamente feminina ou no máximo se refere à conotaçao de que andar de saia apertada é algo dificil e as vezes desconfortavel.
So para aqueles ou aquelas que se sentem desconfortaveis com as pernas ou assim parecem ficar diante do olhar de alguem. Coisa de adolescente deslocada ou tímida, ou coisa de mulher se procurando nos trajes diante do outro.
E pra que toda essa conversa sobre saia justa? Afinal esse blog é sobre nudez! Apenas peguei carona no título do programa pra comentar sobre um dos temas do mesmo em que pautaram falar de silencio.
Curioso, nao? Um programa de tv montado sobre falas e muitas falas, onde a apresentadora oficial cita como tema do dia o Silencio.
E venho aqui pra quebrar o silencio de dias. Estando coordenando um workshop quase internacional ( pois ha uma equipe de “gringos”requerendo traduçao etc), sinto falta de meu silencio.
Lembrei-me disso hoje pela manha, hora em que todos dormem nessa madrugadinha e posso usufruir de um dos bens mais preciosos pra mim nesses tempos de tanto barulho e tanto estimulo de todas as ordens.

Lembrei-me tambem que nao escrevo faz tempo e que nao foi uma escolha pessoal de silencio. Como se isso fosse da maior importancia, por que afinal, a comunicacao pelo silencio- para mim onde a verdade pode se manifestar na maioria das vezes por que deixamos de atuar- é realmente rara. As pessoas parecem mesmo ficar de saia justa quando o silencio chega e parece que isso escapou à produçao do programa.
E tv em silencio é algo inusitado. E até liga-se a tv por que nao se pode suportar o silencio em casa, na maioria das vezes.É claro que isso é uma metáfora e/ou uma enorme generalizada, ou assim parece.

Sem falar que fui acordada por alguem louco berrando la fora, com uma música ensurdecedora, tipo tres e quarenta e cinco da manha. Ha uma tendencia egoista dos barulhentos e caóticos em não conhecer ou saber respeitar o silencio, especialmente o silencio alheio.
E isso é uma das coisas que constato nessa cidade, minha cidade, com tantas pessoas tao invasivas e “donas do espaço”sem parecer se importar com a vida alheia ou a existencia do proximo mesmo que seja a propria natureza.
Ouvi outro dia, numa pequena fala do Erasmo Carlos, num intervalo de um show qualquer-“O homem é a doença do mundo”.

Ficou. E me botou pra pensar sobre cultivo de doenças em nome de proteger a saúde. Cultivo de ganancia em nome de sobreviver. Medo de nao conseguir sobreviver em nome de se acreditar num sistema economico xis. E muita interpretaçao e juizo de certos e errados gerando tanta confusao e tantas mentes programadas e tantos comportamentos condicionados.
Ninguem parece disposto a parar e simplismente fazer silencio. Parar a mente com suas ideias pre-concebidas e tantos rótulos pra tanta coisa. Parar a avalanche de falas de tantos especialistas a bla-bla-bla sobre tantas coisas disputando pedaços de poder no tempo e no espaço das mentes alheias.
Tantos politicos a se fazerem importante como governadores sei la do que.
Tantos barulhentos em nome de produzir som e música e nada de melodia ou harmonia de fato.
E toda essa parafernalia como o lixo especial depositado por aí, gerando todo tipo de acumulo de poluicao de todas as ordens e apenas impedindo a simplicidade de apenas ouvir a batida do meu coraçao que clama por se fazer ouvir.

Nada mais peço.

Sandra Paes - 03:34 AM CST [Link]