Segunda-feira, Julho 19, 2004
Tarefa complicada
Depois de muitos dias de esquecimento, comprei os albuns de retratos. Não é que havia lembrado de fato,é que na passagem pelo caixa do Bath,bed and beyond,- numa dessas lojas que tem tudo pra casa,-tinha uma pilha deles. Lindos, capas de couro, um montão de folhas e superbaratos.
Claro, peguei dois, calculando que dessa vez iria arrumar as memórias fotográficas. Faz tempo esbarro com pacotes de fotos aqui e acolá no escritorio, dentro de uma caixa, em outros lugares...
Ótima tarefa posta para o fim de semana.
Hoje, segunda-feira, fui fazer café e vi os albuns na sala, esperando, esperando...
Por que essa tarefa se tornou tão difícil?
Arrumar album de fotografias é uma forma de passar a vida a limpo. Colocar imagens não é nada, rever cada uma, retomar os fatos e momentos quando elas foram feitas é reeditar um curriculum vitae.Esse que não se imprime pra demonstrar o que voce faz na vida ( arg! que bobagem!). Mas,basicamente o que tenho sido, onde tenho estado, e com que caras. Ë verdade.
Tem fotos de meus quarenta anos. Da despedida na escola de BB.De vários aniversários aqui e acolá.Outras coisas como bodas de alguem, festival de cinema, férias na chapada dos Viadeiros.Idas e vindas a Santa Fé, cenas domésticas, meu olhar para minha própria casa, e gente de todos os tipos.
Para mim, fotografias revelam em sua ordem o que a gente andou fazendo, como se documenta o ato de ser humano. Essa outra tarefa mais complicada ainda- minha coleçao de fotos, não me deixa mentir.
E, céus! não me lembro da metade das coisas que ali estão. Cérebro ruim? vaga memória, precisando um up-grade? talvez sim, talvez não.
Ë que se essa tarefa é uma tentativa de passar a vida a limpo e eu não dou conta do que andei documentando, como fica o tal do livro da vida mesmo? esse que documenta ou assim parece ser, tudo que vivemos como seres humanos?
Talvez, a tarefa complicada seja apenas ser Sandra- que é muitas!
Li num livro de budismo dia desses, que não temos memória de quando começamos a ser. Ou algo assim. Eu, então?!
Sigo por ai sendo, dividida entre leis e ordens, entre progressos e regressões várias, entre encontros e incontáveis despedidas, e esse terrível ato de respirar nesse estado de quase que, retendo tanta energia, mas tanta, que tive que ouvir de minha terapeuta meta-corporal outro dia:
- O que vc andou engolindo?
E eu respondi, quase que brincando:- um monte de sapos, acreditando que tinha comido vários príncipes!
Claro que ela não entendeu nada. Mas é assim mesmo. Faz parte desse enredo que acumula fotos em papel e em memória- nada virtuais.
Ai, que coisa!
Sandra Paes - 07:45 AM CST [Link]