Quinta-feira, Julho 24, 2003
Contradição
Há olhos que dizem que amam e bocas que nunca verbalizam. Esse tem sido meu pesadelo constante. Acordo com essa revelaçao contundente e sinto o coraçao arder. Simples como comida bahiana em tempo de verão. Amores negados doem mais. Queimam. O coraçao quer ir embora, tal como no mito de Eros.
Sempre soube ser esse o maior dos crimes. A negaçao do amor. Pra mim está aí a raiz de todos os males. Todos esses que os remedios nao remedeiam e a medicina occidental nao cura. Tenta fazer pontes de safena. Safenados visiveis e invisiveis andam por ai, escondidos atras de seduçoes várias sem o exito real: a entrega.
Ha bocas que dizem que amam e olhos que nao se revelam. Em meio a esse vendaval de contradiçoes permitidas, seguimos tentando nos escudar até dos pesadelos que sossobram a nos contar tudo sobre todos os que um dia sustentaram de forma ou de outra uma mentira fatal.
Penso que essa contradiçao é a chave para todas as traícoes que se resumem numa só: O medo de se revelar.
Apenas nao entendo por que ainda praticamos esse ato, por que apostamos na falta de originalidade do pecado primeiro e perpetuamos sua dinastia vã. Se amar é tudo que precisamos aprender de fato pra sairmos de toda e qualquer fronteira, que como tal é por si uma armaçao ilimitada, por que temos tanto medo e apenas não nos rendemos simplesmente?
Sabe? Aquela coisa da bandeira branca mesmo. O jogar a toalha no ringue e parar com o boxe, literalmente. Esse jogo de esconde-esconde, pra mim pra la de ridiculo, e que tanta gente parece achar fascinante. Até por que se fosse diferente fazia outra coisa. Ou não?
E é esse o dilemma que nos arrasta quase sempre. Ficar e investir ou partir em nome de outras conquistas deixando para traz o nada, o não resolvido, por que quem nao escolhe nao merece a vida. E ela só habita em coraçoes que lhe acolhe.
Conheço muitos/as que vivem da máscara e até parecem crer que podem enganar a alguem com isso.
Que adianta? O coraçao do amante sempre sabe do amor. Esse nao mente.
Fica registrada sua contradiçao. E fica patente como voce pode ser e estar tão ridículo diante de sua mentira pra si mesmo. E se puder, e eu nem acho que sim, me responde: pra que?
Queria te colocar diante de mim olhar-te nos olhos e saber de fato: me enganei?
Sorry. Se for esse o caso.
Pelo menos assim, liberto meu coraçao que ficou preso nessa estaçao e eu nem notei. Tempos fictícios ou delirantes.
Eu me perdoo por esse enredo e outros que tais e sigo minha jornada, dessa vez de peito mais leve.
Se vim para passar pelo mundo e armazenar amores, que sejam sem tempos do cólera, que sejam pelo que trouxeram de extase e feitiço bom.
Que meu olhar e minha boca se harmonizem a tal ponto que ao me veres passar algum dia, pelo menos ouse sussurrar essa verdade tao boa:
Eu te amo!
Sandra Paes - 03:25 AM CST [Link]
Quarta-feira, Julho 23, 2003
Mapa não é território…
Em torno a risos, música alta, e a minha vontade de não perder parte das frases, entre amigas, que não vejo fisicamente ha tempos, de repente saio com essa: Mapa não é território.
Não sei mais se a conversa girava em torno de uma ou outra citação sobre planetas ou essa “posse deles num mapa”. ( Cá entre nós eu acho muito engraçado, silenciosamente, esse jeito de falar, minha venus está em tal lugar, etc). Talvez eu apenas atravesse pela questão da posse e da senhoridade, e isso ficou muito demarcado com a instituiçao e constituiçao de mapas, dos geográficos, aos emocionais, passando de quebra pelos mapas astrológicos, etc…
Sim, faz tempo que sei que mapa não é território. Nao me lembro quando constatei ( por que estou segura que a descoberta não é minha- trocentas outras pessoas devem ter sacado isso alguma vez). E assim como sei e não tomo nada como sendo pessoal, também sou Kantiniana o suficiente pra saber que o mundo das idéias paira sobre nós e eventualmente podemos toca-lo, e vem essa “radical insegurança”que abarca a todos, nos fazendo correr atras da possibilidade de marcar propriedade, batizar, registrar no cartório, nas patentes, carregando testemunhas etc..Funda-se com isso, o direito à propriedade e suas consequencias: vigilancia pra que nenhum ladrao roube, demarcaçao de impostos pra direito de uso, controle disso e daquilo, tudo decorrente dessa profunda incerteza sobre quem somos e o que estamos fazendo aqui, que nos deu essa trágica descoberta de que temos que possuir e demarcar território pra nos justificar presentes e possuídores de: fundou-se o mapa. E a partir daí navegamos pela confusao possivel de que o mapa é o território. Não, não é.
E a vida vai se incumbir de nos mostrar isso de varias formas e maneiras. Mas essa parte nossa que parece precisar terrivelmente de controle da existencia e das conquistas, segue mapeando e tentando controlar de coisas no armário até a sentimentos. O pior é quando nos arvoramos o poder de controlar o mapa alheio, e o que está sob sua jurisdiçao.
Até por que sem querer, nos apossamos dos donos dos mapas, achando que compramos direito de uso -que nem sempre é capião -do outro como se fosse território nosso.
Afinal a escritura do casamento registrada em cartório, documenta que é assim e o que é pior, todo mundo compra essa ideia. Muito bem vendida e sustentada pelo sistema de crenças de todos os seres humanos.
Tsc, tsc, tsc…As vezes nossa ingenuidade, nossa fuga da inocencia( aquele espaço onde tudo é livre e só brincadeira no jardim das delicias), me comove e me liga com o laço da compaixão e do amor incondicional a meu semelhante. Alias o único elo possível, por que nao regido pelas leis da propriedade.
E é por isso que digo que amar é verbo intransitivo. Por que no momento em que sutilmente entramos na arrogancia de que possuímos começamos a perder, por que começamos a nos perder nessa viagem. Viver é navegar sim. E as coisas teem a importancia que damos a elas, sem falar é claro, que temos o poder de transformar em verdade tudo aquilo que acreditamos como sendo real.
Criamos a ilusão e a desfazemos e isso é um dom que usamos mal. Parece ser assim e nos perdemos na tentativa de demarcar fronteiras e tentar controlar os transitos.
Céus! e fazemos isso até com os mapas astrológicos…Achamos que temos que controlar os transitos planetários so pra dizer pra nos mesmos que está tudo sob controle. De que mesmo, me pergunto?
Eu transito por alguns territorios, sejam eles, ruas, luas ou corpos, e sou tambem territorio pra muitos, até os microbios nao visiveis pelo meu olhar atento apenas ao que pode pescar como essencial e até isso não sou eu quem controla. Apenos experimento e isso é quase que indizível e hoje só hoje sei, que nem sempre é compartilhável.
Nem sempre sei de fato o que pode ou não ser compartilhado e leitura e entendimento de mapas, muito menos.
A gente tenta, as vezes consegue uns por cento nessa historia, mas é so. Se assim nao fosse, nao haveria tanta briga.
Olhem so para as guerras. O que fazemos senão estar brigando por territorios por que insistimos em não ver que seus mapas nao lhes define.Ë claro que sei que muita gente vai pular diante dessa frase...é so ficar atento ao significado de posso pra voce. Apenas isso, e voce poderá entender o que quero dizer aqui...
Que viagem! E por tantos milenios mais ainda vamos ficar nessa cega dualista percepçao de tempo linear e espaço confinado? Quando é que fundamos esses conceitos tao antigos em nossos cerebros sem poder ler de fato o que as emoçoes vivas estao nos revelando?
Nao, submetemos tudo à tentativa de controle da posse do território, nem que seja guardando seus mapas. E ainda os levamos pra todas as discussões, sem ver que na verdade estamos apenas passando o recibo, pra mim claro e evidente, de nossa fragilidade, nossa impotencia temporaria, e essa loucura que é essa pergunta de esfinge:- se nao sei quem sou e nao sei o que faço aqui, me devoro, inventando todas as possibilidades de respostas.
Eu não.
Sandra Paes - 08:52 AM CST [Link]
Terça-feira, Julho 22, 2003
Turning Point
Eu perguntava do you wanna dance? E te abraçava do you wanna dance? Um sonho a mais, lembrar voce nao faz mal…
Acordei com essa música girando na cabeça. Penso, as vezes, sobre como nosso cerebro ou seja la que parte é essa que instala essa memoria “ram”que fica rodando programas inativos mas bem presentes. E o mais curioso que o despertar foi mesmo, do ponto de vista do incomodo, com marteladas e pancadarias. Estou numa ilha de obras.
Nessa cidade sem ordem e sem lei, as coisas parecem ser feitas para atender coisas e objetivos que nada tem a ver com os moradores.
O caminhao do lixo, faz ponto na porta de meu predio, e usa toda a parafernalia pra processar o lixo de varios lugares, exatamente a uma hora da manha.
Nao adianta querer dormir mais cedo, nao adianta dizer que se quer estar só e cansado, a invasao total da urbe nao respeita seus cidadaos ou seus moradores. Ha um maquiavelismo estranho, os fins sempre justificam os meios e cada um decide como bem quiser, fazer o que bem quiser nao importa como e se isso é bom ou nao para os outros.
E ha a obra, que nao tem licença, nao há contrato, ou aviso previo. Começa-se a quebrar, a gerar entulhos e o lixo vem pegar de madrugada e isso com a maior naturalidade.
Terra sem lei, terra da ordem e do progresso, terra da busca da produtividade a qualquer preço, terra da burla e da mentira consentida, terra do caos e da corrupçao, terra abençoada, dizem, e almodiçoada digo, pela falta de reverencia de seus habitantes. Terra de divergencias, terra governada pela propriedade e seus consentimentos aos que se dizem donos, terra disputada pelos que nao teem onde morar e repousar a cabeça e isso se extende até os que acham que teem um teto.
Sim, sinto tudo isso, sinto a necessidade de uma reviravolta, sinto que preciso buscar o ponto de retorno e constato que nao ha apenas um, por que tudo é a favor do caos e todos parecem conspirar na mesma direçao sem perceber a saude de seus corpos e de suas vidas.
Ha lei está em greve, em queda, eu fuga, e onde nao ha ordem ou sustentacao da mesma, o caos impera.
Somos a doença do planeta? Nos tornamos assim por todos os condicionamentos gerados pela busca desenfreada do dinheiro e o que ela possa trazer?
Por que essa dificuldade de simplesmente parar e respirar e sentir? Pra que essa loucura de estar sempre correndo atras?
Que atletismo mais ridiculo é esse? Busca de reconhecimento que nunca chega, efemeridade vã que nao supre o vazio dos que teem fome de tantas coisas e tantas coisas que a posse jamais preencherá.
Saí do workshop de bodytalk pra perceber que os corpos falam mas ninguem os ouve. Nao ha ninguem a escuta, nao ha ninguem capaz de traduzir ou mesmo querer prestar atençao ao que o ser clama, ao que a alma aponta, ao que a sabedoria inata está apontando.
Nos destruimos em nome de construir. Matamos em nome de viver. Abandonamos em nome do amor. Nos escravisamos em nome da liberdade e nos vendemos em nome de uma imagem de poder e aceitaçao.
Ao que parece, corremos do vazio para o abismo e nem notamos.
Cade a placa de retorno? Essa Estrada nao vai a lugar algum.
Sandra Paes - 11:05 AM CST [Link]