Sexta-feira, Julho 30, 2004
Dúvida refrescante
Se o orgasmo é chamado de pequena morte, que tipo de gozo oculta a grande e derradeira morte?
Esse meu koan de hoje. Acordei muito cedo e me entreguei ao silencio possível interno pra ouvir todos os sons de meus orgãos a clamar por algo. Restava-me. Apenas respirar vez em quando.
Pouco a pouco começo a experimentar uma enorme sensaçao de leveza. Nada mesurável em tempo ou em espaço. Apenas uma extraordinária leveza. Não mais divisöes entre partes corporais. Tento focalizar na mente um sistema, um conjunto de partes que fosse, seguindo apenas como que uma intuiçao que me revela em forma de luz, que partes minhas ardiam ou ainda reclamam de dores, justiças, emoções diversas contidas em conjuntos de células ou coisa assim.
A luz aos poucos libera tudo...e vou ficando leve, muito leve, até nem mais querer pensar, focalizar alguma coisa.
Mente treinada, vez por outra uma imagem, um pensamento, algo vago por que é assim que se deixava seguir...
E poderia ter passado todo o tempo apenas nesse estado de entrega. E fiz as pazes com meus medos possíveis, trouxinhas guardadas em vão, como bolinhas de papel amassadas, jogadas no cesto de lixo, quando o assunto nao foi bem feito.
Apenas liberar..soltar, deixar ir embora qualquer julgamento, qualquer exigencia, quaisquer quereres ou frustraçoes..e fui deixando passar.
À minha esquerda uma presença que eu não mais evitava. A representaçao da morte- capa escura, foice nas mãos, algo como a carta 13 do tarot.
E senti sua companhia a me ensinar algo. Afinal, fiz de fato um minuto de silencio ao saber da passagem de um rapaz, quando li seus textos. Uma homenagem real e de profundo respeito. E ali, como que estava ele a me falar dessa mágica. E , então, quase que como num sussuro, o koan refrescante perpassou meus sentidos, e me deixou sem posses e seus agravos.
A morte é a libertaçao do ego que luta por sobreviver e se considerar importante e separado do todo. Entregar-se a ela é de fato começar uma nova vida.Talvez a verdadeira. O resto é apenas resultado de muitas conjecturas, tolas e quase vãs, e como tais, prontas pra serem liberadas.
Ë possível pois, passar por isso, eu sei..eu aceitei o convite.
Não sei ainda como será a festa.
Que importa de fato?
Sandra Paes - 10:26 AM CST [Link]
Domingo, Julho 25, 2004
Dia de chuvas
Pancadas e trovoadas. Tem sido assim nos últimos dias. Gosto de tempestade. Gosto dessa força manifesta na natureza que tudo limpa e tudo lava. Gosto de saber que sou parte dela nessas horas e peço em silencio que meu ser seja também lavado.
Coisa boa!
E, ao que parece, assim acontence. Percebo os pensamentos escorrendo, as emoçoes sendo dissipadas, e todas as tensões, localizadas em diferentes planos, sendo movidas.
Sinto-me mal,quase sempre, com coisas acumuladas, cumulum nimbos, não importa aonde, mesmo que no céu de minha própria cabeça.
Há relaçoes que trazem esse fardo. Há pessoas que preferem colocar "as sujeiras debaixo do tapete"ante a aparencia da limpeza..hummm. Tenho uma certa tendencia a descobrir de imediato que há algo no ar, ou coisas escondidinhas.
Vi outro dia, num documentário que a vida sem segredo seria muito aborrecida. Não sei se concordo.
Segredo é uma coisa, mistério é outra, encolha de temas feito de propósito, com a finalidade de proteger alguem e nos excluir, pra mim cheira a mentira e traição.
Aliás toda mentira é o primeiro passo pra qualquer traiçao.
Nos arvoramos o direito de ocultar, de postergar, de guardar so pra nós, mesmo que o outro queira participar ou estar a par..
Quando deixa de ser par, e vira impar e isso implica em relaçoes, com certeza tem traiçao no meio do caminho.
Então nada como muitas chuvas pra lavar tudo e nos fazer renovados com a bonança.
Assim é na natureza mãe. Será assim na natureza humana?
Hummm, há o que pensar por aqui, mas não agora. Vou curtir a dança de Iansã.
Axé!
Sandra Paes - 01:28 PM CST [Link]