Sábado, Agosto 2, 2003
Compasso de espera
Fui informada que o Brasil anda em compasso de espera. Se referiam a programas de governo, a desenvolvimento de projetos novos, a saídas para sonhos e paz, etc...
Constato, infelizmente, que essa espera vem gerando uma angustia, um "denial"coletivo, um medo generalizado de que a esperança nao seja o suficiente, e o marasmo está em todos os lados.
Parece que tudo ficou em suspense, ou suspenso, até segunda ordem e a ordem nao chega, nem o progresso.
Posso sentir na respiraçao, na maneira como as pessoas falam e olham, no jeito meio obtuso de se desculparem pela omissao e pela impotencia.
Vejo um evadir de paixoes e uma ausencia de almas. Ha sim uma catatonia que me invade, talvez por ler todos os sinais de outra forma, com outra qualidade de observaçao.
Começo a sentir o coraçao querer andar apressado, e sinto o descompasso entre o bater simplesmente e o esforço pra sustentar os pulmoes que andam sobressaltados por que quase tudo remete a uma revolta contida, um inconformismo falso, uma prisao invisivel e essa impotencia mantida às custas de muitas cores e modas na TV e nenhum conteúdo de peso ou reflexivo.
Tempos bicudos, diante das manifestaçoes imperiosas e imperialistas dos "poderosos"ou assim declarados.
A maioria, dita minoria, apenas se cala e fica na espera, e vai perdendo a perspectiva.
Esperar o que mesmo? novos tempos? aliança do cosmo? suporte do universo? a volta do filho pródigo? um melhor salario? Não perder o emprego? manter a segurança diante de tudo desmoronando?
Parece dificil aceitar a decodificação da destruiçao. Talvez se apenas começarmos a ver isso de forma simples, faríamos um momento de silencio interior, pra edificar as mudanças reais e fundamentais.
Será que estamos dispostos? não parece ser isso que as novelas revelam nos seus textos fracos e personagens tao ridiculamente construidos em torno do nada.
Ha que se aguardar. Será?
Sandra Paes - 08:37 PM CST [Link]
Segunda-feira, Julho 28, 2003
Segunda-feira
Ja o nome indica que estamos aparentemente atrasados. Já é o Segundo dia e eu nao inventei nada. Sim, por que Domingo , o dia dos sonhos e da preguiça, soa como o dia das invençoes. E na Segunda-feira é o dia que se começa a construir ou a desconstruir o que inventamos no Domingo. Dia do senhor, dia de se saber “possuidor da criaçao”único com essa força. E ha gente que se deprime por que é Domingo. Ou assim dizem.
O que vc faz no Domingo?
Nos programas já marcados, deixam pra ser o dia da família. Sabe-se la o que isso pode significar... nao é minha agenda. Dia de andar no calçadão, pra quem mora na zona sul do Rio. Dia de cuidar do corpo, dia de ler o livro favorito, dia de dar um tempo nas coisas da casa e ir comer fora e sair do fogão, para outros. Dia de não pensar nas contas e nas coisas do escritório, sei-la-mais-o que.
Pra mim é dia de desconstruçao. Assim se tornou. Nao tenho uma vida normal. Nao funciono na semana como todo mundo e nao acredito nisso tampouco.
Tudo parece coisa de todo dia. Sofro de conjestão de ofertas e procuro o slow motion pra estar. Todos parecem correr rumo a um pódium pra mim desconhecido, logo eu, que sempre detestei corridas e correrias e muito menos qualquer mençao a podiums e premios.
Diziam que eu era espartana. Acho que na verdade sempre fui helenica, hedonista, e sempre detestei qualquer tipo de competiçao. Seja atlética ou estética. Sempre acreditei na unicidade e nao funciono com o silogismo barato de melhor e do pior, da mediçao quase cronica das estatísticas e suas revelaçoes que medem a media, alias, sempre detestei qualquer media.
Gente que faz media entao, xiiiiii!
De onde veem essas coisas?
Médias, medicos, medeios, remedios, estar no meio, mediocre, mediano, meia luz, metades, Medéias. Todos os grupamentos dessa ordem me causam aversão, e nem gosto de ouvir a versão. Não, não é preconceito, é deslocamento, desconforto, lugar de quase isso ou aquilo, algo a quase ser, beira de mar, quebra-mar, edge.
Sim está parecendo verbete de dicionário. Mas o que parece pode não ser e isso também é avesso. Coisas de Segunda-feira.
Ha trocentas coisas inventandas da semana passada transitando na minha cabeça e eu com uma enorme vontade de implodir a todas e sem saber como. Ai, que terror! Essa pressao do economes, essa pressa da produçao, essa ditadura do consumismo a qualquer custo, em nome de sustentar a ciencia da economia e suas regras falidas de vida e sobrevida. Olho e vejo todo mundo correndo pra sobreviver e nao ha ninguem ocupado de simplesmente viver a vida. Deixar que a vida nos carregue, nao o diabo.
Quase me classifico paranoica diante da midia, prima da media e de toda essa paraphernalia ridicula de entupir os sentidos de tanta informaçao e tanta inutilidade e seus adereços.
Meu poder de seleçao e discriminaçao está precisando de ferias.
Mas o fato de viver na modernidade e suas odes, já implica em estar num ritmo acelerado e esse nao é meu, nao é minha escolha.
Detesto todos os ismos tb, especialmente o woorkholismo e essa coisa em torno do trabalho e seus derivados, de salário a pensao e a discussao do sonho de se aposentar, etc.
Um dia vamos parar e até isso é ditado pelo economes, em nome de todos que se esforçam pra meia dúzia botar dinheiro na Suiça.
Arghh! Que shit!
E os idiotas- todos esses que andam em circulo- em torno das mesmas coisas, dos mesmos valores, das mesmas invençoes, das mesmas rotinas, das mesmas passíveis regras disso e daquilo, por que afinal, o medo de nao estar em grupo e/ou acompanhado dita sempre a moda.
Ha que se integrar pra se sentir pertencendo..quem disse?
Ate inventamos que somos grupais, que so podemos viver a dois, e construimos uma parafernalia enorme em torno do casal e suas posses e desejos e sonhos de Domingo ou de verao e toda a omissao de suas possibilidades. Vamos levando em nome desse paradigma que ninguem ousa contestar por que ninguem ousa quebrar com o dia de Segunda-feira.
Ha uma cobrança no ar em torno desse mito. Ilusao maior dos que nem ousam ver se o sonho é real e se precisa ser.
Todos debaixo da mesma ditadura psiquica a interpretar todas as invencoes e a procurar um lugar pra materialize-las.
Nem que seja na base de comprar e consumir as invençoes alheias. E essa tortura continua que demanda e demanda e coloca todos atletas espartanos a engolir dietas e ditames de todo jeito.
Estou fora. E até isso parece ser uma invençao. Como eu disse uma vez para meu amigo piloto, caminhando na praia.
“nao dá pra sair do circulo da existencia. Nem a morte garante isso”. É tudo um circo e aqui é o lugar de sustentaçao do sonho a qualquer custo. E olha que anda muito caro”.
Nao tem como sair do mundo, nem se alienando, nem enlouquecendo. Voce acaba virando assunto e noticia de alguma forma. Até a pariedade é consumida e interpretada e jogada no triturador.
Entao?
Deve ser por isso que dizem que Segunda-feira é dia de branco. Ha que se começar a colocar as coisas na prática.
E Sisifo, se existe em algum lugar, se imortaliza com certeza. Nao paramos nunca de tirar água do oceano e jogar no buraquinho da areia.
Crescemos fisicamente e continuamos fazendo a mesma brincadeira de infancia. Sofisticamos os instrumentos mas é a mesma coisa. Vamos nos ocupar por que entrar no vazio, quem sabe, vai nos lever pra saída e ninguem parece querer sair da roda de Sansara.
Parece que esse, que deveria ser o único sonho, é guardado muito bem por Maia e suas ajudantes.
Voce ja viu? Não? Claro, hoje é Segunda-feira…
Sandra Paes - 06:12 AM CST [Link]