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Sábado, Agosto 11, 2007

Que script é esse?


Me sinto uma atriz sem palco. O palco do mundo não me recebe. Se todos são treinados pra representar bem ou mal um ou vários papéis, por que assim parece ser o treinamento da criatura humana, estou sem trabalho.

Claro, diante da clássica pergunta- fomentada pelo economês vigente- o que voce faz na vida? Da vontade de responder de imediato:- estou sem trabalho.

E está complicado encarar que isso também pode ser um roteiro. O roteiro do sem falas, sem locações, sem diretores e sem platéia.

Olho e vejo todos disputando atenção, maior força em seus desempenhos, ganhos de aplausos ou de grana, pra se sentirem compensados ou recompensados.

Impressionante como a formalidade sempre gera em qualquer encontro a fatal pergunta: "tudo bem com voce?".

Todos mentem, por que é claro, ninguem pode saber se está tudo bem. E se voce ousa dizer, o simples não sei, ja quebrou com o script regular pra abrir o mais recente texto dramático, ou o mais antigo problema, que é como as pessoas dizem que se encontram ou onde parecem trocar ideias ou figurinhas.

Que chatisse!

Isso sem falar nos tipos que te alugam o ouvido pra despejar a avaliação , quase sempre medíocre e desinteressante, de seus desempenhos, como mulher, marido, pai, mãe, funcionário disso ou daquilo, dona de casa, etc.

Outra chatisse!

Sobra o que? a falsa alegria de vamos comemorar por que consegui fechar esse negócio ou minha filha conquistou isso, ou meu marido me deu um carro novo..tsc tsc tsc!

Saiu da cronica dos feitos e ganhos, o que fica de fato?

Sem script. Silencio ou contemplação ficam na mesma página. Aquela que não dá audiencia, reconhecimento ou entao a mais chata das perguntas, típico de quem nao se ve e não se ouve:= o que voce tem que está tão calada e tão quietinha?

Por que? há que fazer barulho, por uma melancia no pescoço, desfilar um vestido novo, exibir novas coxas, e contar sobre conquistas errantes, para parecer estar bem?

Mais uma chatisse!

E assim, de evidencia em evidencia, vou me recolhendo e calando, por que sinto nao pertencer a esse mundo de "luz, camara, açao"onde a disputa da cena é o que parece contar mais.

Gosto da luz, vivo nela, filmo com meus olhos e ajo em silencio, sem alarde.

Esse script existe e é único. É o meu.

Sem contracenas, sem coadjuvantes.. há o nada e gosto disso.

Sandra Paes - 01:38 PM CST [Link]

Sem tangos e sem boleros


Ouço música quase sempre. Quase e sempre parecem não fazer boa parceria numa mesma frase. Assim como tangos e boleros. Ritmos parentes que falam do amor de forma distinta. Num a paixão enloquecida, noutro a nostalgia e a melancolia da despedida dessa possibilidade.

Ambos, instantes distintos e marcantes de compassos no processo de encontro e despedida.

E essa vã e torturante passagem nada secreta que nos invade a todos sem piedade! saga humana?
Talvez.
Percebo que nasci par, cresci impar, me torturando pra sair do espaço de única, apenas pra conjugar o aconchego que, em minha história, sempre escapou, sem fugir pelas janelas, sem sair pela tangente. E eu ali, perplexa, querendo entender e viver ao mesmo tempo o luxo do amor na volúpia de querer reter seu mistério.

Ele, soberano, sempre me deu voltas, e na tonteria de nao sabe-lo, me perdi em silencio, na procura de um ritmo que traduzisse meu passo tropego, cheio de memorias vivas a perseguir minha escolha de paz.

Não sou tangueira, não murmuro boleros, mas sei que ambos se escondem em minhas veias e começam a apertar meu coraçao que insiste em avisar que está por explodir.

Na matématica simples entre um e dois, ficam sempre tres e eu a ser vista como o pivô ou o tripé de toda contra-dança.

E não terminei a peça" Por que me miras e não me sacas para bailar". Nem posso. Eis o enredo de minha vida. E nem foi possível virar samba canção.

Não durmo, não danço mais, pois a nossa música nunca mais tocou.

Sandra Paes - 12:40 PM CST [Link]

Quarta-feira, Agosto 8, 2007

Reentrada


Não sei se a palavra exite. Não sei se está grafada corretamente.Que importa? O sentimento não corresponde ao significado. Não sei se saí. Não sei onde fui, se fui.

Olho a porta e não consigo entrar. Me pediam uma chave pra abrir a porta. Meu proprio domínio...que ironia!

Me pego em desavenho. Eu, que sempre me achei portentosa e senhora de mim, fico barrada na porta de meu próprio escaninho.

Que resquícios forjaram essa censura?

Fato é que insisti. Bati à porta muitas vezes, ousei diferentes senhas, nada em vão, por que sonhei chegar e ficar, pelo menos por um pouco. E em meio a arquivos, papeis vários, cartas, cartões, extratos, distratos e contratos, encontro o bilhete inicial e nele a chave para o "enter".

E eis-me aqui, inchada de possibilidades, amores retidos, paixões ardentes queimando visceras, silencios forçados por companhias e campainhas desligadas.

Mal posso respirar, posso pirar..há que pirar pra respirar e expirar.
Sim, sem a retençao, onde fica o gozo?
Onde te escondes? em que escaninhos e labirintos de tantas curvas internas e infernais ditas tuas leis e me submete à insonia, à tortura quase vã do não sei?

Preciso me saber, preciso me encontrar pra te contar, pra te cortar, fatias saborosas de deleite, espalhadas entre molhos e caldos outrora derramados por amores vis e nunca vãos.

Nenhum amor é vão, nenhuma entrada é triunfal, apenas a re-entrada, localizada no segredo mais íntimo de sutis reentrancias entre a pele e o desejo.

Para que preciso de verão?

Sandra Paes - 12:26 PM CST [Link]