Sábado, Agosto 16, 2003
Eu,hein?!
Ja nem me lembro mais o que ocorreu na madrugada. E pra que? Ja se foi…
A velocidade me deixa tonta. Sempre deixou. Sou de ritmo lento, de gostar de degustar, de curtir despertar e adormecer, de tomar o café sorvendo aos poucos os goles.
Penso, às vezes, que só vim ao mundo pra saborear o silencio, o ritimo das criaçoes e aprecia-las. Depois do advento do economes, e dessa pressa imposta pelo que se deduziu do que deveria ser a revoluçao industrial, se instituiu a pressa. Pressa de crescer, pressa de fazer, pressa de amar, pressa de imprensar, pressa de consumir. Sinto-me atropelada cotidianamente.
Minha alma quer sair do coraçao. Meu coraçao quer sair do peito. A vida ali quer emigrar. E ja nao se trata de mudar de territorio. Estao todos dominados e contaminados pelo mesmo vicio, o mesmo ritimo, a mesma fuga do vazio, a mesma gula, a mesma superficialidade em tudo.
Gosto de mergulhos profundos, gosto de erudiçao, gosto de contemplar estrelas longuiquas, gosto de viajar no olhar, detesto espelho, dinheiro, compusão, fast-food, rapidinhas, raspadinhas, mediocridade, burrice, incompetencia, e toda e qualquer forma disfarçada ou não, de superficialidade.
Então, o que sera que ainda faço nesse mundo que se perpetua, se prolonga e acaba com meu ser cheio de cansaço grego?
Pois é.
Eu, que sempre me orgulhei de comigo nao desavir, nao encontro espaço sem invasao, seja de sem tetos, sem terra, sem chão, sem princípios, sem éticas, sem rumos, sem perspectivas, sem éticas, sem eira e sem beira.
Descubro que não se pode cair fora da existencia. O mundo nao deixa. Ele se perpetua em sua marcha criada pelos homens que acreditam na quimera do consumir e do produzir quase que compulsivamente, em nome de achar que se vai a algum lugar. E o planeta dá sinais de cansaço que supera o meu proprio cansaço. Aliás, não sei onde começa o que.
Vez por outra sei que somatizo o que a terra contém ou vive. Sou uma com ela ja nem me lembro mais desde quando. Talvez desde que me tornei terráquea. Outrora, alhures, me apaixonei por esse planeta azul que clama e reclama e ninguem ouve.
A natureza urge massacrada pelos seus filhos vis. E isso me doi e me sabendo cosmicamente simbiótica, sofro em meu ventre e visceras o que meu coraçao, uno com todos os outros seres vivos com quem compartilho o mesmo lar, denuncia.
Ja nem ha espaço para saudades. Os tempos se foram e com eles parte de minha memória ou o que sobrou de um registro que se prenunciaria esperançoso e complascente.
Tudo arde. Como o fogo que devora a Europa. Tudo comprime, como a invasao de tantos territorios cheios de violencia e assassinatos. Tudo seca como os meridianos de aguas nos continentes do sul.
Ninguem se atenta. A ganancia ciranda imposta por desejos falsos, devora nao so a superficie das consciencias, mas devasta as almas e com isso meu coraçao quer deixar de pulsar.
O meu e o do planeta que agoniza a olhos vistos e esse denial coletivo desfarçado de “stock marketing” e suas conversas em torno da especulaçao.
Nao me falem em RG, nao me perguntem numero de CPF como principio de identificacao. Nao me perguntem quanto tempo fico nem pra onde vou. Pra que?
Há algum lugar diferente da zona de agonia imperiosa?
O mundo agoniza seus últimos suspiros com toda a pujança de um enorme império que cai de podre e nós , como que a fazer de conta que nada é grave, ou real.
Eu, hein?!
Sandra Paes - 11:37 AM CST [Link]
Domingo, Agosto 10, 2003
Dores e pesos
Que direitos ou mensagens se ocultam debaixo dessas sensaçoes?Faz tempo sinto dores e percebo pesos, pesares, pesames. Há uma foice no ar a podar vidas, relaçoes, ideias e sonhos, amigos e laços outrora vividos ou cultivados.
Não, não é a presença da morte, não é o corte abrupto, não é o prenuncio da partida, é outra coisa. É um estar entre, um quase que, uma forma que não se define, um sentimento sem localidade, um grupamento de um não sei o que, uma passagem pra não sei pra onde.
Sei que dói, sei que pesa, sei que perturba, sei que está por aí e atinge a muitos de nós.
Uma força talvez? Ou seria uma sombra ou uma sobra?
Há algo no ar que não é leve. Há uma adaga que atravessa minhas costas e vasa meu coração. Há um arfar que não prenuncia um gemido de prazer, não chega a ser solene, mas também não marca hora. Apenas sinto. Doi, como tem sido muito do tempo ao passar por essa experiencia humana.
Cansa, às vezes arrasta, outras entorpece, e até parece que o sentir, na descriçao de seus sinais é semelhante ao extase. Mas o prenúncio é outro. São dores e pesos. Se localizam em pontos articulares, impedem o movimento e o olhar manso. Et por cause.
Coisa do feminino que se encolhe ou assim parece ser. Útero que pulsa e se intimida diante de tal presença, e repito, não é prenuncio de gozo, sao dores e pesos…
E eu sinto muito…Sinto onde quer que passo, onde pouso o abdomen por pouco, onde sonho enquanto durmo e acordo com o mesmo peso. Não tem uma coceirinha aliviante, não há um suspirar de alivio, é estranho, como certa hora da noite em que não se faz alta nem passante. E os ruídos da civilizaçao se confundem com o canto dos pássaros, que quase desaparecem em meio a tantos ruídos de automóveis em velocidade.
A urbe dói e pesa também. Acho que é isso, essa desnatureza, esse acachapante sentimento de inadequaçao e um desejo mixto de partir e decodificar.
Felizes dos que podem ou puderam apenas viver na Gloria dessa quase insustentavel leveza de ser.
Talvez quisera tentar rete-la. Talvez sonhasse restar nela e por ela, talvez ambicionasse apenas isso, esse estar ali, onde apenas murmuram as quimeras mais doces e onde se arquivam nossas melhores lembranças.
Em meio a doces frutos e dias perfeitos de maio, permanece meu lugar favorito, lugar que na verdade nunca foi meu por que nada possuo, nem as sensaçoes que ousei nomear uma vez de coletanea de raros prazeres.
No mais, tudo é dor e peso.
E saber que trata-se da ilusao da gravidade, da permanencia na terra e sua atraçao fatal.
E eu aqui, apenas querendo levitar, já que jamais concretizei o sonho de menina astronauta.
Ainda permanece quase que intocavel esse desejo de ser Deus e astronauta.
Meus sonhos são mais do que utópicos e talvez essa seja a origem de todo peso e toda dor.
Ha algo em mim que sabe disso e essa memória e esse saber ainda batem em minhas costas e apertam o pulsar dessa vida que nem sei se é minha de fato.
Afinal o que é tudo senao o que pensamos que sentimos a respeito?
Sandra Paes - 04:53 AM CST [Link]