Quarta-feira, Agosto 20, 2003
Intermediário
Eventualmente nos acostumamos com o uso de certas palavras. E isso ocorre de forma tão natural que passam a ser parte de nosso falar cotidiano.
Ao contrário do que prediz a voz popular sobre "viriginianos"eu sou avessa a hábitos e rotinas. E vez por outra me estranho com alguns deles, nos outros.
Acho que é isso. Estranho os hábitos dos outros e a paralisia que isso embute. Estranho o caminho comun, o conhecido, o repetitivo, a obsessão- essa coisa que parece com repetir de ano, de tarefa, de tudo.
Se nao for pelo caminho conhecido, pelas mesmas vias, se não tiver a "tal da segurança"que nada mais parece ser do que a invisivel manutençao dos hábitos de sempre, nada pode ser.
Sou pelos caminhos desconhecidos, sou pelo novo, sou pelo que nao se manifestou, sou pelo desafio do invisivel. Meus ventos sempre sopraram em minhas raízes rumo ao não sei. E parece que ando mesmo sozinha nessa trilha. Ou assim parece ser.
E o que tem isso a ver com intermediário? pense bem. Quem não se aventura manda portador. Quem não se expõe manda embaixador. Quem acha que não vai dar conta da conversa ou da negociação, manda representante. E quem não quer ser responsável também usa o intermediário.
E isso virou moda, virou profissão, virou meio de comunicação.
Quem nao assume os fins e os princípios gosta de mediar, de remediar, de intermediar e, ao que parece, detesta assumir as consequencias.
E a notar pelo advento de tantas pilulas, multiplicam se os intermediadores. E o consumo deles também.
Tão estranho quanto o despacho e o despachante, o intermediário é aquele "quase que, o tal do estar entre"que mencionei outro dia, em outro texto, mas no mesmo contexto.
Percebo que o Rio é uma cidade de intermediários. Nunca tem responsável de plantao ou de fato. Há sempre alguem que "está por acaso"de saída, acabando de chegar, novato, etc...
Acho que descobri o nó do incomodo. Não há gente em "charge". Não tem assumidos, não tem consequencia nem continuidade. Talvez, e olhe lá, quebra-galhos, intermediários.
Dentes provisórios, ficadas provisórias, salas provisórias, mensageiros de passagem, tudo é inconstante mesmo no instante da constancia.
Como é que se respira diante de tanto "scape"?
Até pra respirar, movimento que requer tres tempos, há que se fazer escolhas e ser responsável, não essa fuga constante, esse deslizar em patins invisíveis, essa falta de aliança com a presença das horas.
Assim, até o astrologues ganha conotaçao de intermezzo...
Não , não é exagero. Não, já passou.Foi só um mal súbito..
Que tal mudar de assunto?
O intervalo já acabou.
Sandra Paes - 09:15 AM CST [Link]
Domingo, Agosto 17, 2003
Venus revisitada
Pleonasmo é isso. Imaginar que Venus retorna, ou se foi, ou coisa assim. Ela me escolheu como seu refúgio. Nao fui consultada. Nunca sou.Ela nao pede licença. Pra que? Senhora de meu destino e do que penso ser meu script.
Ja me descreveram como portentosa sedutora, ja me cantaram em prosa e versos, e se iludem os que acham que falam de mim. Ouço ou leio e sinto que é ela , a Deusa, que se regozija.
Vivemos assim, não como a mao direita e a esquerda, mas há sim um acordo intimo, entre ela e eu, que sussura debaixo de meus lençois- minha pele- que ali está.
A mim é dado apenas o direito de vibra-la e tentar canalizar o que, majestosamente, ela em mim vem revelar e atraves de meu corpo expressar em todos que ela escolhe encantar.
Nao sei se é doce essa escravidao ou essa posse. Nada mais sei ou queira fazer. Apenas constato hoje que foi um presente da Deusa para que meu ser inanimado pudesse saber o real significado de ter anima.
E assim, deslizei por ai, em tantas viagens e tantos corpos e almas tudo que ela predestinou que devesse tocar ou deixar visitar.
Ha esse mistério que um dia me espantou, transtornou a muitos e a mim, e como tal é pra continuar.
Nao sei se consenti, nao sei se soube de fato, nao sei se dominei em algum instante siquer. Quando se é escolhido por esse mito tão diáfano, apenas nos tornamos nuas em nosso ser que passa e a todos arrebata e como disse um dia:
Que sei desse amor? Que fala em mim linguas que desconheço. Passo e ele está a espreita, apenas me reflito nesse maná de mães no sol fletido na luz de cada dia.
Vem, se apossa, toma meu ser cansado e frágil e faz dele um templo de beleza e todos os volteios que, para alem do verbo, domina e apossa. Sem títulos nem certidoes. Sem cerimonias, oficiais ou com testemunhas. Apenas os Deuses calados a contemplar o milagre que se transborda no leito onde Venus se permite deleitar.
E disso sei, e sabem os que com ela, em mim, puderam um dia viajar e se tornar imortais por instantes eternos.
E nesse desdobrar sigo construindo essa trajetoria invisivel e totalmente tangível so para os escolhidos.
E esses são muito poucos. Templo de Venus so se abre para os entregues, os desavisados, os inocentes e puros de desejo.
E esse não é produto de Mercado, é fruto do cansaço do vazio e da busca interna indefinida e incansavel, numa espera que será sempre recompensada.
Ë um luxo só, desses que nao tem griffies nem está exposto nas vitrines, apenas no olhar dos amantes, lugar onde ninguem expõe mercadores e produtos à venda.
Território exclusivo dos que foram selecionados por Eros no mais intenso de seu gemido clamor pelo encontro com a Psique.
Só essa pista posso dar. Esse territorio nao está registrado em mapas, nem os astrologicos, mas atras de sinais muito sutis que apenas os eleitos podem ter acesso.
O que mais?
tsc,tsc,tsc.Apenas usufrua que a eternidade é aqui e agora e o tempo se extinguiu e com ele todos os contos que fizeram em torno de cronos.
Sandra Paes - 03:16 PM CST [Link]