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Quarta-feira, Setembro 1, 2004

Virando do avesso

Quando te vi frente a frente, não vi o teu rosto. Chamei de mal gosto o que vi, de mal gosto o mal gosto. É que narciso acha feio tudo que não é espelho...

Há dias em que a gente amanhece do avesso. Como no verso de Cae. Sei lá por que. Talvez essa pressão circunstancial de aniversário, que sempre me colocou um cheque mate, e nunca me mostrou Luanda.
E fico assim, do avesso. Ponho tudo de cabeça pra baixo, ou sou eu quem está sendo virada de cabeça pra baixo, e dessa forma todas as coisas ficam foram de lugar. Até a gente descobrir que nao há lugar.
Ah, passo a vida há anos lutando por um lugar. Ao sol, durante os verões em Ipanema, na chuva, diante desse medo atávico de ficar molhada e pegar resfriado, nas filas, na tentativa de achar um lugar melhor dentro do cinema ou do teatro, nos restaurantes, esperando por uma mesa "melhorzinha"pra sentar e comer. Até em casa, no cantinho "gato"pra encolher as pernas e me aninhar feito gato com o livro do momento nas mãos.
Mas quando vem esse "terremoto"de vésperas de nascimento, é como se o trabalho de parto e sua memória nada agradável viesse à tona, outra vez e me levasse a esse estado de enjoo, esse estar sem espelho- nada reflete o que sou por que ainda não renasci.
E ter que virar phenix, por que não há outra alternativa, na hora da metamorfose, é catastrófico, sempre.
Que coisa mais "aburrida"!

Sei que ando na contra-mão, que falo linguas várias, até as que desconheço regularmente, por que sei ler as entrelinhas de almas, e esse código, não está em nenhum alfabeto e em nenhuma escola.
E daí? de que serve viver tantos anos olhando pra todas as coisas e vendo detalhes que so a gente consegue, se não há o prazer de compartilhar por que não encontrei os outros.
Mais um ano, virada do avesso, à cata de meu grupo dos 12..
Seria isso um fato ou um desejo utópico.
Não parece importar muito..tem gente demais procurando lugares já marcados e cheios de "placas"de donos, disputando valores de compra e troca. E eu apenas sei que detesto tudo isso e parece, nada posso fazer contra isso.
E minha paciencia por estar se esgotando, anda roubando minha paz interna, coisa que me faz ficar muito confusa com estar feliz e curtir o externo.
Queira poder viver ao menos um aninho inconsequentemente, e sentir as costas quentes e saber, simplesmente, que tudo vai ficar bem, sem ter que ficar corrigindo os trajetos, os meio-pontos, os saldos de todas as ordens.
Ficar do avesso revela a versão mais cruel de algo e não é preciso estar Narciso pra isso.

Sandra Paes - 06:35 AM CST [Link]