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Sábado, Setembro 6, 2003

Pontos


-Onde é o ponto de onibus?
-Depois de vírgula pode-se por algum ponto?
-Quando é que voce vai por um ponto final nessa história?
-Eu não sei qual é o ponto de partida...


Apenas pra falar de alguns. A primeira pergunta ouço sempre que estou nas ruas, em alguma calçada, regra geral esperando o momento certo pra atravessar. Coisas do Rio de Janeiro, que ficou com esse excesso de carros, até nas calçadas.
E ainda me surpreendo que as pessoas nem olham pra ver que carrego um ponto de interrogaçao na testa. Nao adianta, sempre me pedem informaçao. Essa é a mínima. Não me lembro se alguma vez foi diferente.
Na escola, a mesma coisa. Era no meu braço que catucavam pra tirar dúvidas. Aí comecei a entender o conceito de chatisse.

Agora, cobranças, essas que as pessoas se arvoram o direito de ter e estar sempre na postura de invadir seu território, seu self, sua identidade, seus pensamentos, sua fala, etc, essas, em meu resumee, são apenas reticencias. Pontos que continuam.

Eu realmente não consigo localizar quando isso começou. Coisa como a eterna discussão sobre a origem do mundo, do universo, etc...Não há ponto de partida. E também nao deve ter ponto final.

Com certeza, ou com dúvidas, há certas coisas que não devem ser como circuíto de onibus, com ponto final e trajeto conhecido.

Mas chatisse humana e inconveniencia não estão nessa classificação.E deve estar em altissíma fase de reproduçao e circulaçao no mercado por que não fabricam mais desconfiometro, nem censores de medida de limites de qualquer ordem.

Está chegando ao ponto de começar a querer desistir, e não é à priori, de ter humanos como assuntos e ponto de investigação.

Acho que estou precisando de um ano sabático. Especialmente agora que resolvi matar o tempo de vez e tudo que isso envolve em termos de possíveis interpretaçoes mais sérias.

Com essa morte, evidentemente seguem as ilusões, uma vez que tempo é uma de nossas maiores ilusões. E como consequencia, descobre-se sim, que a maioria das conversas e especulaçoes em tornos dos ditos temas humanos são tão ilusórios quanto, e tão chatos quanto e tão obsoletos quanto e tão dispensáveis quanto.
Aguardemos pois o que de fato é depois dessa descoberta.

Se todos tivessem coragem pra matar o tempo de vez, passaríamos automaticamente pra outra dimensão, e toda e qualquer discussao sobre ocupaçao de espaço fosse qual fosse, desapareceria. A começar que não iamos mais usar o recurso de sermos mortais pra "aproveitar o tempo"e levar vantagem no que fosse possível dentro do tempo que temos.
Entre outras coisas por que nao possúimos o tempo, mas ousamos vende-lo e é aí que começa toda confusao. Aquela que dizem começou quando escolhemos o caminho do bem e do mal, como roteiro de volta pra casa.

Não há roteiro possível, não há pontos de refresco, nem pontos de tortura. Tudo é apenas um efeito retórico e bem retrógado, que ainda insistimos em sustentar por que morremos de medo de acabar com essa parafernália.

Simples como :- nao ando de onibus e nem sei qual deles passa em que lugar.
-Nenhuma história tem ponto final. A gente é que limita os enredos por que é monolítico e gosta de viver em duas dimensões e adora cultivar um dogma e um drama: principio, meio e fim, como regrinha de continuidade e finitude de visão mesmo, pra nao dizer burrice ou antolhice mesmo.
-Vírgula é apenas necessidade de pausa pra respirar. Sinal de que não estamos vivendo direito por que sem respirar não dá.
E depois de uma expirada, o que importa mesmo?

Aí vem aquela chave de abertura da mãe da hipocrisia pra se fazer de conta que há continuidade:- Onde é que eu estava mesmo?

Como se o outro é que fosse o detentor de meus caminhos...é claro, invasão direta, as reticencias depois das vírgulas, quase sempre são lidas como: agora é minha vez...


E vai dizer que toda essa gramática de vida não é totalmente ridícula?!

Eu acho.

Sandra Paes - 10:24 AM CST [Link]

Quinta-feira, Setembro 4, 2003

Aniversariando

De repente o mesmo som de obras. Nada parece diferente, nada ressoa novo. Sei que aniversario, assim como milhares de anonimos querendo ser especial ou tornar único o dia que nasceu. Algo que marque o nascer desse sol de outra forma. Impossivel nao reconhecer que ainda estou no mesmo cenário, mudando para outro set, mas a peça, o enredo é o mesmo. Esse de todos nós.
Acordo de um sonho onde protagonizava um personagem cuja fala era apenas isso, diante de morrer massacrada por uma invasao, nao sei mais de que soldados: ”- Um dia serei a própria terra”
. E ao se identificar com o que dissera, mesmo sabendo que era apenas um texto, ve todos os outros sets de sua existencia como se fossem outros lugares, outras vidas, com atores ora conhecidos ora não, e já em seguida, depois de ter esse vislumbre é chamada para entrar no carro e ir para outro lugar.

Ficou essa marca hoje pela manha. Represento e nem sei o que nem quando. Nao me foi dado o direito ou a lembrança de ter sido escolhida pra que personagem e quando e por quem.
Diferente pra quem, mesmo?!
Se fosse pra ser presentiada, nao haveria de ser com essa habilidade terrível de sentir tudo, e carregar na coluna as marcas de todos os tempos e tanta dor.
Talvez por que resista estar aqui, nesse corpo, nesse cenário, nesse teatro vivo, onde tudo está apenas confinado nesse mundo, onde todos procuram dar um poder maior, uma luz que seja à sua fala, ou seu momento, sua chance de se fazer importante e único. Nem que seja para o ator com quem se conjuga dois segundos de contemplaçao ou interaçao num dado momento.
E ainda seria ótimo que gostássemos do que fazemos, e que acreditassemos nas críticas ou falas dos que por ventura possam estar assistindo nossa performance. E são tantos!

Começa com a familia, para alguns o medico ou a parteira, pra dizer que nasceu uma menina e que é assim ou assado. Depois vem mais uma testemunha pra dizer:- Ela é a cara do pai! E por aí começa nossa performance que parece parar quando morremos, e ainda assim com público e assistencia, quando há testemunhas.
Tudo cenário e tudo muito ensaiado. Afinal todas as emoçoes sao ensinadas e todo comportamento ditado por normas já vigentes e bem esperadas e totalmente marcadas.
Se seu papel for de mae, vizinha, filha, sogra, auditora, esposa abandonada, ou não, bem casada ou bem amada, mal amada, gorda feliz, magra conservadora, escolha o substantivo e o adjetivo, qualquer um e voce está no “cast”.
E ainda acredita que tudo isso é legal. E discute e briga por ideias, e lugares e figurinos, e olhares e textos e objetos, e corpos e segredos etc.
Está tudo incluido.
Um dia, aniversariar pode ser apenas o comunicado nada oficial de que ja está ha muito tempo no teatro e pode se flagrar querendo cair fora de tudo isso e nem sabe como.
Até por que, até isso, tambem pode ja estar fazendo parte de um script e a gente nem advinha.

Pensamos que sabemos e acreditamos que o que pensamos é real e trocamos falas e gestos com tantos outros que fazem a mesma coisa e andam pra la e pra ca e viajam e pulam muros, e compram coisas e pessoas e citam outros tantos, e soltam uns e escondem outros e tudo, está tudo dentro desse mesmo quadro.

Agora, so quero saber onde está a fonte da Matrix, por enquanto…

E quero muito dar outra finalidade para todos esses buracos que existem em vão.
Ou nada disso…afinal, não me lembro de te-los feito, e nem acho muito estranho que todos vivam muito curiosos em torno deles, pra ser simples.
Se aniversariar é contar ou recontar quando se chegou nesse teatro e brindar a estreia, parece tudo muito esquisito hoje pela manhã.
Afinal pode ser apenas sinal de um “tal eterno sinal de nervosismo da estreia”.

Por mais que vivo, cá dentro carrego um pulsar de estrela nova, vibrando a síndrome nervosa, e nem é pelo público possível, é pelo ato de representar em si mesmo.
E nem consigo me lembrar quem sou ou quem fui. Resta-me apenas viver a persona do momento.
E ando esquecendo as falas e figurinos e nao gosto da marcaçao de passos. Jamais gostei.
E hoje deixo de ser um rosto que se reflete num espelho pra me tornar um espelho que reflete tantos rostos e tantos sonhos e esperanças e projeçoes. E elas andam muito tristes e em baixa.
Ei, aí alguem aí em cima? Dá pra dar uma arrumada na luz e no cenário?

Aloooooo!!!


Sandra Paes - 09:11 AM CST [Link]