Sexta-feira, Setembro 12, 2003
Um assovio
Gosto do nome. Gosto do nome em ingles tambem: wistle...soa como o próprio. Gosto de assoviar. E quase tudo que vem em torno do mesmo tema, tal como sussurro.
Talvez seja a delicadeza, a sutileza, a feminilidade do sopro, a presença que a metáfora do divino evoca nisso.
Dizem que o que homem traz de melhor é o sopro divino. Um dia, de bom humor, Deus brincando de confeiteiro, fez um bonequinho e começou a assoviar e desse sopro de alegria e leveza surgiu o que chamamos o homem.
Contaria assim para uma criança, a nossa história. Aliás, nem sei se não é uma criaçao de minha própria criança, que entre outras coisas, gosta de cantarolar de assoviar e se sente bem divinal quando faz isso.
Sabem o segredo? o peso desaparece. O café sai mais gostoso, a rotina some, nada é obrigatório, tudo é brincadeira. Brincar, o verbo real do paraíso, antes que inventassem que o "barato"é cavar e ter tudo conquistado com o suor do rosto. Essa metáfora para o quebrar a cara. Que coisa mais tola!
E o sopro é sempre mágico mesmo. Quando uma criança cai e se machuca o primeiro curativo é o carinho da atençao com um sopro no machucado. Já pensou por que vai embora?
Pois é, é isso mesmo. Soprar passa. Cria outras possibilidades, muda o enfoque, alinha a mente e a coluna fica mansinha, e nada de torturas de qualquer ordem. Esse espaço da dúvida e da confusão vão embora sim, e isso é mágico.
E disso eu entendo. Mesmo os que acham que o "light touch"é coisa de bruxas e que por isso alguem vai parar na fogueira.
O fogo da verdade queima mesmo, mas não doi. É agradável e até exala perfume de rosas. Eu sei.
Como? ouse, se deixe entregar para a leveza do espírito, e deixe que ele fale com voz mansa ao pé de seu ouvido e lhe arrepie a pele e lhe traga um calor que corre dentro e lhe faz sentir como se estivesse numa montanha russa, ou caindo num abismo de puro deleite.
Não é preciso ter medo. O efeito do assovio é totalmente intimo e seguro.
Sö sabem e guardam os que aprenderam seu segredo, puro "template divino", portal para o céu, gosto de menta nas veias, e a certeza que a vida é sempre muito maior do que a nossa cabeça quase filosófica possa mencionar ou falar a respeito.
Sim, simples como estar "in love". Não há o que dizer. É além do verbo. É sua propria presença e de tão perfeita e séria, se torna transparente e leve como uma bolha de sabão. Ao querer rete-la, desaparece.
Sim, mas voce sabe que existe e que é capaz de faze-la. Basta um assovio.
Sandra Paes - 09:05 AM CST [Link]
Terça-feira, Setembro 9, 2003
Desencontro: o que fazer?
Já cantaram em verso e prosa que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Escrevem-se colunas e mais textos sobre os encontros, dos políticos aos sociais, dos clandestinos aos famosos( por que assim resolveram nomear quem é publicabicamente uma figura divulgada).
Descubro que viver no anonimato parece não se enquadrar no dito acima. E ao que parece, a modernidade resolveu inventar que aparecer na TV ou na mídia é sinal de celebridade e portanto lhe daria um status de ser maior ou reconhecido, como se isso, pontuasse de fato o ato de estar vivo.
Chego a pensar que aqueles poucos que conseguem marcar encontros, seja como for, e os realiza, talvez nem pensem em nada disso.
Muita gente parece buscar uma carreira ou uma corriqueira forma de aparecer em algum lugar e, de preferencia ser notado.
Isso me leva a refletir sobre o desencontro.
Entao fica acertado assim: tudo combinado, nada resolvido.
Decido tambem parar de brigar com o desencontro visto que parece ser esse o tema de minhas agendas na atualidade.
Um dia, uma figura oracular me revelou em tom solene:- esse caso de amor, esquece! voces entraram no túnel do desencontro. É uma pena, mas não há nada a fazer.
Hoje essa frase me veio, assim, como do nada, por constatar que desde que pisei em solo brasileiro, nao faço outra coisa a não ser administrar desencontro.
Desculpas? todas justificativas? as mais plausíveis. E parece que é assim mesmo.
Será que não resta mesmo nada a fazer, me pergunto?
Não, não creio nisso. Encontro pra mim é compromisso inadiável de dois que se enlaçam em uma prioridade comum e nada pode apartar isso.
Quando assim não é, o que seria? filme de hollywood? An afair to remember?
Sinto por aqui uma ausencia de compromisso, uma palavra adiável, uma desculpa como ponto comum de qualquer jeito. Tudo se adia, tudo se procrastina, com arte ou sem estilo. Apenas o ato de deixar pra depois. E o depois parece ficou sendo a palavra mais usada.
Depois te chamo. Depois nos falamos. Depois vemos isso. Depois penso em tal assunto. Depois a gente ve, então é mais do que comum. É a tonica do dia, dos dias, das relaçoes.
E eu volto a perguntar: que relaçoes? Se tudo é ou gira em torno do se Deus quiser e Ele nao parece se apresentar com frequencia ou figuraçao nos atrasos, nos esquecimentos de todos os que cruzaram minhas linhas telefonicas ou agendas, como é que fica?
Não fica. E agora, como entender o tal moderno "ficar"das pessoas jovens de hoje. Vai ver eles sao os fundadores do desencontro e o "ficar"é apenas o que sobra da possibilidade da total falta de compromisso, de interesse, de assumir alguma coisa junto e conjuntamente.
Está em extinção a sociedade, o casamento, a parceria, o encontro...poderia ser uma manchete de amanhã. Nem isso, por que talvez o editor não apareça e isso tambem tem que ser adiado, esquecido, postergado e ...nem se fala mais nisso.
Será que o Sartre sabia disso quando afirmou que o inferno é o outro?
Se não, cada outro, ao acabar com o encontro, com certeza gera um inferno privado. Multiplicado por milhares de tantos uns e outros, pra que culpar as organizaçoes terroristas do que?
O terror está na espera vã. O terror está nesse intervalo de coisa nenhuma. Na certeza de que o normal é o atraso e o não cumprimento seja la do que for.
O terror está na declaraçao explicita de que a guerra é a anarquia invisivel imposta pela sutileza do desencontro, o ardil, o propósito, a denunciar a falta de foco e de interesse.
O que fazer?
Eu não tenho vocaçao pra Pedro Pedreiro e ha muito tempo que percebo que a paciencia- a ciencia que cultiva a paz, está sendo bombardeada em seu núcleo, pelo desinteresse comum. Depois acham que a culpa é dos xiitas ou das torcidas enlouquecidas ou dos esquadroes sem nome.
Não, a coisa começa em nós, nessa displicencia do abuso do sim no lugar do não e nenhuma reverencia por qualquer ato.
Há quem durma com esse barulho e com todas as buzinas dos apressados presos pelos sinais vermelhos, crentes que estão atrasados e que estão, com isso, justificando seus desencontros.
E tudo isso, cheio de celulares e internautas pra todos os lados...
Gostaria de fotografar o momento em que a palavra e o coraçao se desentenderam de vez e cada um passou a dizer qualquer coisa e a mentira passou a ser a voz do momento e todos a acreditar em qualquer coisa que se promete e ponto.
Fica meu espanto.
Sandra Paes - 01:30 PM CST [Link]