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Terça-feira, Setembro 16, 2003

Segredos dos sonhos

Sempre gostei de sonhar. Não necessariamente acordada ( seja la o que isso possa significar). Os sonhos de sono profundo são os meus favoritos. Mora em mim um diretor e um editor grandemente criativos e fantásticos plantadores de enigmas.
Foi sempre assim. Desde menina, eu acho. Eventualmente sou capaz de lembrar de sonhos muito antigos. Mesmo depois que soube que o tempo é holográfico ainda uso essa expressão a título figurativo. Apenas isso.
E é exatamente por saber que a vida é circular e em expiral, exatamente como as órbitas planetarias e as galaxias e até nosso DNA, é que fico fascinada com os segredos dos sonhos.
Ao que parece, é de repente. Uma bela madrugada sonho com amores de anos atrás. Tudo intenso e vivo. E junto com esse fotograma, vem outras pessoas, outras vozes e cenarios, como se tivesse lá dentro um arquivo, feito sabe-se la sob que registro ou nominação.
Não, não dá pra deixar de lado. Nem sei por que. Mas gosto de mistérios, gosto de navegar no desconhecido e traze-lo à luz e gosto dessa viagem e suas vertigens.

E isso me remete a Proust, um canceriano frances que escreveu sobre a busca do tempo perdido. ( soa péssimo em portugues, gosto mais em sua lingua original. E me pergunto sobre isso olhando pela janela do taxi que transita pela avenida onde morei outrora. Subitamente vem o sonho outra vez e com algumas de suas imagens, flashes inteiros do que ali vivi outrora.
Sim, isso é meu presente. Salto do carro e atravesso a rua com segurança e pergunto com voz firme pelo Dr. fulano de tal.
Não é preciso descrever o espanto diante da resposta dos porteiros. Essa categoria que habita os umbrais dos edifícios no Rio de Janeiro e que parece exercer todo um poder particular sobre seu território de aparente domínio- a entrada e acesso a um bloco de residencias.

Me sinto uma atriz poderosa diante do dominio de seu script e sua marcaçao de cena. Hoje é diferente de antes, apenas nessa aspecto, quando nem siquer me sabia atuando tao fortmente.
De novo o elemento surpresa. Sim, ele ainda mora ao lado. Nao como o pecado, mas como uma possível chave que nem sei o que irá abrir, mas que não deixarei de conferir nem de adentrar.
Talvez esteja à caça de partes de mim mesma, fragmentos de minha biografia cujo desenrolar ficou meio obscuro ou talvez não seja nada disso.
Afinal, quem sou eu diante dos segredos de todos os sonhos que habitam ainda meu ser, sempre tão mais vasto e interessante do que qualquer personagem inventado por um autor que não eu mesma.
Se é que eu possa hoje afirmar que sou autora de mim mesma.
Talvez apenas tente juntar peças de um quebra-cabeças, que um dia foi quebra-coraçao, que um dia foi domínio de hormonios, que um dia foi uma distraçao entre os passos percorridos nessa mesma rua onde não mais passo desavisada.

Sandra Paes - 10:07 PM CST [Link]

Múltiplos

Esses são os temas que giram em mim. Da arte de ser ou se tornar carioca, a todos os embaraços sobre conceito saúde, performance de vida, felicidade a outros derivados.

Acho que andei vendo muita entrevista de TV. Diga-se de passagem todos os programas muito bons. Não, não saberia reproduzir o canal, o horário, etc. Tudo isso permeado por conversas com gente que não vejo há anos e todo o imaginário girando sem parar, à cata de um rosto, um link de recordaçao, uma prática de "escanear" a fala e a respiraçao entre outras coisas.

Sem conclusões. Percebo apenas essa coisa, que nem chega a ser uma vontade, de ficar quieta, me pegando vez por outra suspirando no silencio de minha casa, quando as luzes do dia e todos os seus adendos, se apagam.
Ando desconfiando dessa minha sutil e estranha forma de perceber o outro como barulhento e fugás.

Talvez seja o ritmo dos tempos, talvez seja essa tal desculpa cotidiana de uma agenda que não segue a regra da impermanencia, o que me parece ora medíocre, ora burro, ora aprisionante.

Verdade é que isso me cheira a "carioquez". Um verbo que parece ser natural a conjugaçao por aqui, nessa paisagem paradisiaca, com toda essa ausencia de compromisso e o tal "a gente se ve por ai"como a mais formal maneira de se marcar um encontro.
O deslizar, o surfar, o ficar beirando a superficialidade como forma de viver me espanta. Tanto quanto deve ser o efeito do extinto fumace para os mosquitos e outros insetos.

Só sei que essa multiplicidade e essa pulverização me causa espécie. Talvez resista. Talvez não aprecie, talvez nao seja a minha fórmula de felicidade. Sim por que acredito que ser feliz é uma utopia é uma das invençoes mais estranhas e lúdicas que criamos pra passar nosso tempo e essa angustia permanente que geme feito um longing que brota na alma, e nunca sabemos o que fazer com ele.
No meu caso, agarro o viajante, ou apenas tento uma parceria aparente. Entre outras coisas, por que o mundo é cheio de tantas venturas e desventuras e tantas demandas que fica difícil digerir todas elas.
Há que resistir aos efeitos capitalistas da falsa globalizaçao e toda sua gama de consumos feéricos.

Sou simples. Sofistico o desejo por que o gosto inteiro e completo. E nisso o requinte nunca é excluso.
Se abro mão, caio nos braços da infelicidade. E no meu caso, ela nunca está nas vitrines de nenhuma loja, embora possa ocultar-se na mansidão de uma voz aveludada e nessa magia que me promove de objeto de desejo a autora de seu enredo.

E nessa multiplicidade brinco de driblar, sem bola, nesse jogo de viver num mundo que ainda busca identidade e briga por espaço e espelhos pra se fazer notável.

Ah se soubessem dos prazeres do anonimato, dos silencios que se fazem segredos, e de acordos que so se estabelecem entre minha alma e sua aracnídea dança de possibilidades!

Sandra Paes - 09:09 AM CST [Link]