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Quinta-feira, Setembro 25, 2003

De todo modo


Trata-se de um cerco.Aparentemente nada visível. Mas como o essencial é invísivel aos olhos, para mim, que vejo com a alma, a realidade é outra.

Já disse algumas vezes: o que é tudo senão o que pensamos de tudo?. Agora, ganho um upgrade de leitura. Depois de alguns estalinhos no cérebro, eis-me aqui diante da constatação, há dias silenciosa, que estou cercada de todo modo.
Trata-se das mentes alheias e suas programações fundadas no medo. Constato e é só. E como não sou do tipo que acredita com frequencia que há certas coisas que não são pra serem entendidas, mas pra serem constatadas, escolho mergulhar no mar do mesmismo, nos conceitos comprados e divulgados, na tão propagada credibilidade da ciencia e da mídia, e toda a obviedade que só assim parece ser para mim, pelo menos.

Andei vendo TV com outros olhos- aquele olhar que não é crítico mas que apenas observa o fluxo da criação e do pensamento propagado.
Há uma fórmula comum. E essa não é baseada em Lacan. Ë a fórmula aceita de pensamento que constitui a moda. E é moda a globalidade, a tecnologia, a discussão sobre sexualidade e suas opções, sobre conceitos e expressões de beleza, de poderes políticos e maneiras de crescer.
Fala-se muito em violencia, em conquista da paz, em solução para os problemas de saúde, em fundos de reserva, em liquidação de dívidas, em traições, em programas de fidelidade, em juros, em longevidade e urbanismo.
Só pra deixar bem claro a pluralidade e Estranha diversificação de temas, ou problemas, como se assim fosse.

O que não se olha é a forma como olhamos pra todas as coisas. E o que não se questiona é a forma como pensamos sobre tudo.
Vem em bloco. Da ditadura dos hormonios, como jusficativa única, à obrigatoriedade de comentar sobre os programas de TV, se são válidos ou honestos, ou de qualidade, e até ousam comentar que o que vem da emissora classe A é de boa qualidade.

Todos perderam ou assim parece ser, a capacidade de desconfiar do comum. Desconfiar do que se chama de autoridade, olhando com distancia e destaque para tudo isso que se faz em nome da segurança, da qualidade de vida, da ordem, de um possível progresso.

Não olhamos mais onde a hipocrisia reina e como. Não queremos saber das formas de disfaçatez, habilmente plantadas pra sustentaçao de um só tipo de crença e visão.
Ficaram todos condicionados e manipulados pelo tempo e pelo dinheiro. E até se aponta como soluçao de vida o emprego. Termo decorrente da revolução industrial, que passou a arrebanhar mão de obra pra produçao de bens de consumo, que já se extrapola em montes de besteiras e venenos, e ninguem para pra olhar a indústria atras da indústria: milhares de pessoas robotizadas se dando importancia por que repetem o mesmo padrão de discurso e se sentem importantes por que estão dentro do programa massificador de nossos tempos.

Até os textos metafísicos se adaptam a essa farsa. Análise de transitos lunares são úteis se empregados pra bolsa de valores, cirurgias modernas e suas recuperaçoes, tempo de engravidar e programar a cezariana, formas diversas de conforto por que afinal, viver no conforto do consumo é a lei da modernidade. E quem não a cumpre, está fora de contexto e não é bem visto, ou aceito, ou integrado, não recebe reconhecimento e vira pária.

A familia tambem entrou pra era da modernidade globalista e isso se reflete nos quadros de humor totalmente satíricos e nas novelas cheias de medos embutidos nas entrelinhas.
Saímos dos castelos de pedra da idade média e entramos nos castelos de ideias, tão aprisionantes e sofisticadamente engendradas que ninguem ousa sair do círculo de giz.
Se ousar, vai descobrir a farsa e ao descobrir entra-se na constataçao de que tudo é apenas um jogo, no qual nossa propria interface- a maneira como a mente traduz os sentidos, está completamente comprometida com todas essas regras.

Sim, desconfio sempre, embora confie profundamente. Em que? podes perguntar.
Nisso aí, que voce não ousa encarar e às vezes interpreta como mágico.

Inteligencia não é mensurável. O que se mede é o grau de fidelidade a uma forma de pensamento vigente e isso é altamente fabricado.

Sandra Paes - 09:51 AM CST [Link]