Quarta-feira, Outubro 1, 2003
Nem toda feiticeira é corcunda
Ouço repetidamente o refrão na voz de Maria Rita. Num estilo jazzistíco muito pessoal, com todo flavorpimentinha da mãe Elis, ela invade minhas tardes gostosamente.
Há um mistério em tudo isso que me fascina. Essa força que renasce. Esse recado direto de que Elis e tudo que ela encerra, está de volta, ou nunca foi.
De novo, girando sem parar a verdade que parece recusamos ver que a vida é eterna. Mudam- se cenários, algumas formas, mas tudo permanece e se refaz.
Parece ser assim com a feitiçaria boa exercida pela filha de Elis.
De olhos fechados então, não se sabe onde começa mãe e filha.
Ouso sonhar que a mãe está aí presente, fazendo contra-canto com ela, a cada momento, a cada acorde, a cada tonalidade. E pensar que era apenas uma criança que talvez nem tenha visto a mãe em concerto.
E daí ? a Deusa sempre sabe como renascer e recriar.
A gente é que não se toca, ao que parece.
E como diria a moça que me deu esse lindo CD:- etalele!!!!
Sandra Paes - 02:18 PM CST [Link]
Terça-feira, Setembro 30, 2003
Retorno de Platão
Em meio a tantas notícias sobre economia e destino do mundo, numa madrugada dessas, vi entrevistas sobre o poder de controle dos USA sobre o planeta. De reservas cambiais todas feitas em dólares a cifras assustadoras de tres trilhoes de doláres acumulados no exterior, só em nome de se acreditar que os tesouros nacionais precisam ser "guardados em dolares"e isso é uma exigencia dos USA..Alooooo!
Me deu vontade/saudade de reler Platão. Pop em minha mente o mito da caverna. Percebo que ele paira no ar. Nada resolvemos sobre nossas prisões, estamos todos num Carandiru metafísico e mental mesmo. Estamos todos debaixo da tortura invisível e cruel de que se nao formos bons o suficientes, não sairemos da mediocridade, da pobreza,e estamos todos acachapados por essa forja imposta e aceita pela nossa cegueira de que não há nada diferente pra fazer e viver.
Ficamos condicionados ao medo da mudança e à prisão de pensar da mesma forma.
Afinal são milhares de pessoas prisioneiras de crenças como- fazer economia, trabalhar para promover o crescimento da nação,há que depositar a segurança do futuro em moedas fortes, etc etc.
E enquanto isso, todos escravos do tempo de produção, dos juros de mora, da especulação financeira e afetiva, prisioneiros dos julgamentos montados em etiquetas várias sobre "classes sociais"crescimento e toda essa falácia que não passa de uma grande e enorme prisão de milhões de mentes encavernadas no mesmo sistema de crenças.
Nao me admira o surto de depressão, de violencia, de crise de pânico, de frustraçoes e abafamentos em tornos de derrotas possíveis ou tantas falas projetadas sobre personagens que, por acaso, em aguma ficção, fazem algum sucesso.
E ainda vem a Globo expor uma nova novela chamada- Celebridades!
E tome de Prozac! e tome de medos produzidos em doses diárias- da oscilaçao da moeda e o susto da inflaçao- conceitos criados e sustentados pelo mesmo algoz, até, o torturante bandaid no calcanhar, hoje fomentado em nome do novo terror cotidiano depois do ataque às torres de NY.
Ninguem entedeu nada. Dentro da prisão a sombra é uma ameaça e ousar sair pra ver o sol, é inconcebível.
E, ao que parece, como disse o filósofo- os prisioneiros ainda matam os que tentam lhes mostrar que a vida não é o que está na caverna. Eles insistem em acreditar que sim.
Pensando bem, acho que não é um retorno de Platão. Ele está vivo e presente. Seu mito jamais se foi.
Deve ser por isso que não se ensina mais filosofia nas escolas regulares. Nem música, nem artes, nem latim, nem grego, nada de humanas.
O lema de hoje é robotizar e criarmos exterminadores do presente.
Pra que falar em futuro, quando nem siquer cogita-se que estamos dentro de um pesadelo?
Sim, por que isso não é vida, é luta pela sobrevivencia numa selva mística, em cavernas que se multiplicaram em nossas mentes e projeçoes várias.
Refletimos os medos que nos impõem. Saímos das cavernas de terra e nos mudamos para as cavernas das crenças e ideias.
Há que ousar abandonar o que pensamos ser o certo.Há que ousar cruzar o círculo de giz.
Sandra Paes - 09:29 AM CST [Link]
Segunda-feira, Setembro 29, 2003
It's Virgo's cosmic job to publish a legible map of the unseen world.
Enigmático isso, não?! Pois é. Trata-se de meu horóscopo do dia. Em meio a outras citações referentes a outras profissões, veio essa apenas pra lembrar qual a minha tarefa.
Como eu disse,parece que tudo gira em favor dessa "coisa"que escravisa e dita o que se deve ser e o fazer como fundação de quem se é.
Acho que ando ficando impressionada com as sincronicas descobertas em torno da possível existencia nesse mundo e suas regras básicas e genéricas.
Se se toma ao pé da letra essa sentença, fica complicado. Se não fica também. Apenas por que acredito que em terra de cego, quem tem um olho emigra. Que dirá publicar um mapa do mundo invisível. Só está invisível por que ninguem ainda viu, o que parece excluir aos "virginianos"em questão.
De todo modo, o título de um de meus textos recém escrito, cabe aqui como luva, ou pista de descoberta pra esse mundo invisível.
Céus! será que estou publicando o tal mapa e não percebi?
Em se interpretando óraculos, nunca há que ser ao pé da letra. E ainda assim, não sei se as pessoas gostam de brincar de mistério.
Talvez. Afinal Paulo Coelho vende livros como água, et por cause.
Preciso acabar com a crença de que as pessoas gostam de mapa, só pra dizer que tem, não por que estão interessadas em desvenda-los. Isso feito, fim de mistério. E parece fazer parte de nossa humanice, curtir o drama do mistério, ora subjugando-se a ele, ora fingindo que ele não é importante, ora brincando de esconder com isso.
Bobagens! muita bobagem!
Sandra Paes - 09:46 PM CST [Link]
Domingo, Setembro 28, 2003
Quem faz sucesso
No mundo do consumo, há que se filtrar os sentidos pra não ficarem entulhados com o jogo de engulir sucessos.
Há um bombardeio maior que qualquer um desses que propagam notícias ditas alarmantes do oriente médio. Outra forma de provocar sucesso dos poderosos dos controles.
Tento, quase que diariamente, evitar o massacre da urbe. Outdoors, já não fazem mais parte de uma seleçao do olhar. Aliás o olhar já não tem muita liberdade de escolha. Os espaços andam todos ocupados.Haja meditação e respiração especial pra não ser objeto de consumo compulsivo com tanta invasão de sentidos.
Ando ardendo. Percebo que fiquei poluída.Sensível por destino, clean por opção astrológica, tento sobreviver a tantas drogas.
E pensar que os que se drogam de propósito é que se tornam os mais vendidos.De escritores, a cantores e compositores, não falta biografias exibidoras dos excessos e abusos de todas as ordens como princípio de caminho ou falta de-mas com certeza, um marco forte na trajetória dos bem sucedidos.
Sucesso de vendas, especialmente. Vende-se a imagem portentosa dos que escaparam das internaçoes, das overdoses, das grandes maladrangens e dos grandes golpes.Fala-se com um certo orgulho dos que conseguem driblar a norma, a lei, o fisco, a consciencia possível do público, da massa ignara que compra e compra e engole e engole. E acha maravilhoso fazer coro nas multidões, aplaudindo a marginália, em nome do "máximo"que ela aparece representar.
Há a indústria do fast food, dos CD's prensados a custo de muito pó, das novelas movidas a imagens pre-fabricadas, à monitoraçao controlada de ibopes diários, forjando o que é bom de acordo com a dose de engodo que se impõe guela a baixo de todos os engulidores sem discriminação.
Não há formaçao de ética, nem tempo pra degustar, por que se essa arte for passada, há que se abrir os sentidos para o requinte e o filtro natural do talvez com certeza aparecerá.
E pra que? Quanto mais gula, mais ambição, mais discurso sobre acabar com a fome, com a desigualdade se produz. Quanto mais luxúria, mais prisão nos jogos de auto-estima e suas mentiras várias, quanto mais pressão pra se devorar tudo, mais se investe de fato na fome, e os políticos mais faturam sobre a "sociabilizaçao"e igualdade de direitos.
O pai das mentiras, patrocinador de todos os engodos por aí disseminado, investe no sucesso de todos esses que brilham temporariamente pra sustentar a ilusao de festa e embotar os sentidos anulando por completo toda e qualquer possibilidade de flexão e reflexão.
Pra que? afinal o mundo é mesmo dos loucos, dos drogados, dos pecadores, dos enganadores, dos golpistas, dos espertos, dos atores, dos que sofisticam suas máscaras de representação e o fazem com tal maestria que enganam a todos e acham muito engraçado toda essa festa ou orgia. Esse faz de conta que a vida é esse gift.
Afinal quem foi que disse que a venda da utópica felicidade não é o grande produto que os humanos ainda geram?
Afinal, pra que saber? Me engana que eu gosto é a maior lei e o caminho da ilusão, com certeza o mais trilhado.
Quanto à outra estrada, essa que nos faz sair de Roma e viver seu avesso, não tem mapa, não tem testemunha, não tem mídia a favor, não tem dicas nem aplausos.
E quem de fato vai trilha-la?
Se sim, apenas cala-se. Pois enquanto isso, a vida já passou e sua narrativa ficou apenas dentro de registros intangíveis.
Sandra Paes - 11:12 AM CST [Link]