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Sábado, Outubro 11, 2003

Explicação

Não, não tem explicação!- Parei diante do poder da frase. Paro quase sempre, tanto quanto ao ouvir,coisas como:- Voce me deve uma explicação! ou, até- Não quero nenhuma explicação!

Tudo isso apenas pra encerrar nossa necessidade de entender.Quando a percepção escurece e parece se fechar fica-se prisioneiro da explicação!
E é impressionante como tem gente que vive girando em torno disso, ou pensa que é assim. Eu mesma, só estou aqui escrevendo por que fui vasculhar essa manhã alguns pontos de interrogaçao e outros tantos de exclamação.
E constato que sou movida fortemente em direção a explicações.Há em mim ainda, uma necessidade de enteder seja lá o que for,como se meu bicho carpinteiro so se nutrisse disso.
Comecei a experimentar não buscar respostas.A deixar, a let go, being still...

É mais do que uma mente curiosa e vasculhadora, é um ser treinado pela propria vida e mergulhar no não e no sim, no mistério dos comportamentos, nas idiossincráticas expressões reveladas atraves de todos nós.
Fica tudo engraçado, porque sem raízes, tudo é apenas uma comédia ridícula.
Saciada a mente por dois tempos, parece que outra porta se abre, pra outras ruas de possibilidades e só a partir daí,ganhamos o tícket de partida.
Talvez aí tenha uma chave para sustentaçao de relacionamentos, de investimentos, de perdas de vida, fins de novelas, na tela ou na ficçao da vida.
Queremos uma explicaçao.
O duro é ter que admitir que há certas coisas que são feitas para não ter explicações. Apenas constata-se.
E é melhor assim mesmo. Nos libertamos.
E isso não é um ponto final,embora possa parecer que sim.

Sandra Paes - 01:05 PM CST [Link]

Quinta-feira, Outubro 9, 2003

Marcação


Houve um tempo em que usava como expressão metáforica algo que se usa em futebol:- marcação homem a homem. Era apenas a tentativa de indicar para meu interlocutor no momento, fosse quem fosse, que essa coisa de pegar no pé, é coisa de campo de futebol.
Hoje, repensando o termo, por que há coisas marcadas na agenda pra serem feitas, de número de voo passando para assento no avião, à hora na pedicure, a um encontro no café, entre outras coisas, constato que o mundo ficou cheio de marcas e marcaçoes. Legitimamos o controle e as divisas de todo território, do delineador, ao lugar à mesa.
Mesmo sendo viriginiana - que não sei por que virou símbolo de ordem e detalhismo- não gosto de marcação.
Marca talvez tenha para mim o sentido de estígma, enígma, algo a se decifrar sempre ou algo que não extingue a possibilidade de projeçoes e tantos significados possíveis. Tão possíveis como o numero de intérpretes e decifradores.Cheira a caos. E la no fundo, gosto mesmo é de elegancia, harmonia, nada de exageros e maus tons, ou coisas que parecem se desdobrar naturalmente, sem fins rígidos.

A açao de marcar,vez por outra, sai do campo e entra na burrice mesmo. Perde-se a flexibilidade e aparecem aquelas caras de "boi de presépio"quando a gente tenta mudar alguma coisa.
O que me causa urticárias, é , quase sempre, a inflexibilidade.
E não tem nada mais inflexível do que cabeça de "controler". Seja de fronteiras, seja de ciumento, seja de mãe de plantão, seja de porteiro, seja de caixa de banco, seja de qualquer um que acredita em risco e riscado e fica preso a essas marcas.

Coisa de louco, embora se saiba que delirar é romper com as fronteiras.
A gente cria coisas pra facilitar a vida e depois fica prisioneiro dessa criações.
Por essas e outras que costumo dizer que minhas criações são sempre melhores que minhas criaturas.
As criaçoes são livres, expansivas, ilimitadas, viajantes de possibilidades, as criaturas requerem comandos, ordens, determinaçoes, limitaçoes e as tais marcaçoes, de cena à tantas outras, até de falas.
E já sei que vou ter que falar com umas criaturas de cias aéreas pra remarcar um bilhete.
Já viu?!

Saiu da ordem há que se inventar outra por que agora não se pode mais viajar em aberto, há que se inventar uma data de retorno, nem que seja pra não ser cumprida, e ter que remarcar outra vez e outra vez...
Inventaram que toda ida tem que ter volta.
Eu posso?!

Sandra Paes - 01:14 PM CST [Link]

Terça-feira, Outubro 7, 2003

KBÇA DE VENTO


Há dias em que os pensamentos se tornam como tempestades. A cada olhar, dezenas de imagens são produzidas no cérebro. E quando se tem que interagir em ambientes cheios de falas e fumaças, acrescenta-se a isso, os cheiros e os sons.
Ficam como aditivos para a tempestade interna, que constato, calmamente, diante de tantos estímulos em todos os sentidos.
Respirar é a chave. Aquela mesma resposta que vez por outra dou aos gringos quando me perguntam:- What you do for living?

Se tudo é apenas dança de moléculas, todas compostas de oxigenio e carbono, por que se dá tanta importancia ao que os outros pensam ou dizem que pensam, ou mesmo o que nós dizemos que vemos e pensamos?

Que poderes damos a nossas mentes e seus valores e suas formas infinitas de ordenar qualquer coisa?
Já nem sei mais, depois de ter visto o filme sobre Vilasboas, se tudo não passa de "coisa de branco".
Não o branco de pele, o branco de valores mundanos, que acredita em economia, em segredos, em burlas e bulas, em remédios e põe tanta fé nas pílulas, das anteconcepcionais às que trazem um tesão temporario pra justificar que o casamento tem jeito.

Cultura de branco acredita em lucro e fala e fala com o peito estufado sobre sucesso, nem que seja o ato animal de aparentemente ganhar no "bico"a "mina"Xis, quando tudo isso é apenas efeito colateral do cérebro primitivo.

Nos vejo perdidos, entre despachos de papéis a despachos das esquinas, da oferta para o santo trazer o homem de volta, às amarras de alianças no dedo, com escritura lavrada com testemunha em cartório que a união é pra valer.

E não posso deixar de pensar que Fernando Pessoa tinha razão ao descrever tantas vezes como somos ridículos.
E brincamos de inventar saídas, e soluçoes várias, tudo em nome das utopias mais cretinas e loucas, pra justificar que somos sim caóticos e cheios de empáfia.

Ë discurso de todo lado, caras e bocas por outros, bancas repletas de revistas e ofertas que variam de canetas a miniaturas, sem deixar de lado as promoçoes de "ganhe seu carro e sua casa no campo", passando por filmes pornôs e outros tantos "ditos clássicos".

O que é classico na efemera luxuria que nos circunda e nos avalia como bons ou maus humanos se não estamos com nossa bala na agulha, com todo poder de compra disponível pra justificar a roda da vida?
E o pior é ouvir o presidente defensor do emprego e do micro crédito, pra deixar o pobre ter direito de fazer parte dessa roda numa boa.
Não basta a falta de questionamento sobre nossa forma de questionar. O negócio é colocar todo mundo na mesma roda, a roda da compulsao do desejo, a roda da anorexia, a roda da briga contra os vícios, a roda dos amigos que só assim são considerados por que abaixam a cabeça e concordam com as mesmas barbaridades de sempre.

E pra ser delicada é melhor dizer que trata-se de kbça de vento.

Sandra Paes - 10:50 PM CST [Link]

Domingo, Outubro 5, 2003

Permitindo que as emoçoes transbordem

De repente, pego carona no verso da letra da música. Coisa simples. Ë apenas uma carona mesmo.Distraída, aparentemente, lendo outra coisa enquanto a voz de Maria Rita invade meu peito e sinto a presença da Elis.
O verso? que pena mas vc não vale à pena...Nao vale uma fisgada dessa dor, não vale nem o verso de um poema...

Trick, trick, pronta pra música seguinte já embarcada na viagem rumo a Elis, e quando vem:- mande notícias do lado de lá diz quem fica, sinto as lágrimas crescendo dentro de mim. Uma onda de energia que ultrapassa todos os limites de meu ser,e o pranto rola intenso e quente, como sempre é o meu jorro emotivo- em todos os sentidos.

Simultaneo o carrocel de clareza sobre encontros e despedidas, a partida de Elis, a minha própria, o constatar inteiro de estar no trem, o vai e vem que foi toda minha historia de vida, lembranças de infancia dentro do trem olhando a estaçao...
Hoje soube que há muito soube dos lados da mesma viagem. Estou no trem da vida e uma cançao numa voz que traz outra voz, revela a vida para além desse meu lugar.
A vida que ultrapassa a morte, ou a ilusao do que ela representa no nosso cotidiano parado numa estação qualquer, como medo de perder a identidade, como se isso fosse motivo de perder a vida.
Vai ver por isso inventaram o passaporte. O controle do direito de ir e vir, e ainda se briga por liberdade com toda essa "loucura"em nome de fronteira e o bater ponto cada vez que se cruza a linha imaginária do imposto.

Daqui a pouco são capazes de inventar o imposto pela passagem da vida pra morte e vice-versa. Nessa terra de loucos inventando controle sobre o ato de encarnar, encarar, desencanar, há que deixar que as emoçoes transbordem por que alias, ainda é nossa única liberdade de ser.
O resto, parece já contabiliziram.
EU quero mais é deixar que meus liquidos vazem e transbordem em jorros por que ser humano ainda doi e meu container não me cabe.

Preciso de muitos corpos pra exercer a multiplicidade de vidas que minha alma encerra.
Será esse o conceito de corporeidade e o motivo de se pagar estacionamento? afinal, tudo que aqui se faz é apenas pra sustentar a corporeidade.
O resto, que me perdoem os cegos, é volátil mesmo e vai com o vento e até com som de música.Como a Terra sou 75% líquido e transbordo.

Sandra Paes - 11:43 AM CST [Link]