Sábado, Outubro 18, 2003
que script é esse?
Sempre, ou quase sempre, desconfiei que a vida é apenas um scrip. Ora montado por autores que assim se definem, ora performartizado por atores que nem se localizam como tal. Mas, nao passa disso.
Uma enorme peça, onde todos com seus papéis, já definidos ou impostos, tentam fazer suas cenas e roubar atençao uns dos outros e se vangloriarem por que adquiriram esse ou aquele aplauso e ver por outra algum troféu.
Daí esse espaço pra cinema, dramas, novelas, cortes, políticas, interpretaçoes históricas, guardadores de fronteiras, vigias de comportamentos alheios, analistas de mentes e corpos, cobradores de impostos, defensores públicos, vigilantes do peso, amantes e pula-cercas, e toda essa gama de personalidades, sempre sob a vigilancia atenta dos olhares críticos de todos, regidos por leis ou regras criadas pra omitir a hipocrisia que é na verdade a mãe de tudo.
E, é claro, diante de feriados, compras, celebraçoes, discursos sobre ilegitimidade,apelos para a defesa dos pobres, dos carentes, absolviçoes dos aparentemente santos, amarras de alianças várias, ou furto de documentos que dizem, afirmam quem vocé é,me pergunto: - que script é esse?
Furtaram meus documentos, dia desses. A experiencia de lidar com tudo isso e todas as revelaçoes em torno do que vc é ou deixa de ser porque nao tem uma carteira tal que o define, me espanta. Ainda.
E o pior é o drama e a complicação traçada em torno de se ter que provar que se é alguem.
Os orgão responsáveis por ediçao de documentos têm normas pra segunda ediçao de suas ID'S. Normas totalmente loucas e incoerentes.
Mas os ladroes de documentos e cartoes de crédito, nao precisam provar quem sao pra comprarem o que bem quiserem. Nao precisam apresentar comprovante de assinatura, nem documentos que justifiquem suas atitudes de "carentes temporarios '.
Olho pra tudo isso como uma peça dentro de outra peça. Ruim é constatar que tudo é uma enorme fralde.
Nao me identifico com a carteira que diz ser minha identidade. Nao me reconheço cidadã de um país onde nao compartilho das crenças e modo de viver, nem tampouco com o signo astrológico que me atribuem por terem me registrado como alguem que nasceu em setembro.
Tudo falso, tudo fabricado, e nem tem como mudar o script que já começa formulado pelas credencias que inventaram pra mim depois que nasci.
Daí pra frente apenas um estígma.Renovar identidade de fato, deveria ser me colocar no papel que de fato reconheço que é o meu. Mas isso, nenhum orgao vai fazer, nem ninguem reconhecerá.
E eu pergunto de novo- que script é esse?
Não há como sair da roda da existencia onde as pessoas confundem mapa com territorio, documentos de identificaçao com existencia e curriculum vitae, nacionalidade com identificaçao de origem e outras coisas mais.
Voce tem que ter um estado civil, tem que ter um número de PESSOA FÏSICA, um número de eleitor, um número de origem de nascimento e algo que prova que voce está vivo e participa da sociedade, pagando contas, impostos, que viaja, que tem conta no banco, que cursou uma escola e tem nível de escolaridade, que tem uma religiao, um clube de torcida ou frequencia, um sindicato que lhe "protege"os direitos de trabalhador, etc.
Assim, voce prova que está na grande peça, e faz alguma performance. E talvez, lhe julguem uma pessoa de bem.
Se sua atuaçao se tornar estampada pela mídia voce pode se tornar uma celebridade, se voce fizer alguma coisa que chame a atençao de muitos e isso for julgado como de bem comum, não importa a verdade mas o que propagam, aí voce será louvado.
E tem gente que acredita em tudo isso e chama tudo isso de realidade.
So queria que uma dia, se isso tambem existir, que alguem me diga o que estou fazendo aqui nesse manicomio coletivo chamado vez por outra de "human society".
E o pior é ter ainda que armazenar pontos pra dizer que foi bom e que vale à pena...
Sandra Paes - 05:58 AM CST [Link]
Domingo, Outubro 12, 2003
No, je ne regret rian
Na voz de Cássia soa diferente.Uma, duas vezes e o som vem como mantra.Combinação perfeita entre história, garganta,melodia e poesia.
Isso sim pode ser um registro de não arrependimento. Quando se sonha com harmonia e não com lutas.Quando se deseja o fluxo natural das águas e se sabe que se vem pra trazer o fogo, quando se sente inteireza nessa composição perfeita, pode-se cantar a todos os cantos de cara lavada:- No, je ne regret rian.
Mas há a omissão do desejo. A fome que não se aplaca, a sede que persiste, o cérebro que confunde e funde fotogramas e edita histórias sem principios e sem eira.
Há o desconhecimento do erro. A dissociação entre impulso e realização do ser. Há a compulsão do desejo e a caça desenfreada por objetos de desejos obscuros.
E ainda há o espaço do "denial". Fonte de toda doença, praga contígua na alma e nos corpos dos que se deixam escravizar pelo medo à priori.
Não, não é para qualquer um a liberdade autentica de se cantar: -No, je ne regret rian.
Se coragem é a ação do coração, para muitos ele não passa de um músculo desconhecido, escravo apenas da função de comandar a circulação do sangue, tão banal quanto o policial da esquina,que indiferente comanda a ordem de "circular".
Agir não é reagir e tem gente que passa pela vida apenas respondendo ao que lhes comandam fazer.Não sabem responder ao grito da essencia, nem sabem que essencia existe.
Circulam por aí, como robots, como hamburguers ou almondegas-apenas um amontoado de carne moída, compactada num veículo emoldurado qualquer.
Triste,não?
Eu acho.
Sandra Paes - 02:24 PM CST [Link]
Mulheres Proibidas
Ah, que enfado! Acaba mais uma novela que dizem, teve superaudiencia.Debaixo do nome de Mulheres Apaixonadas manipulou-se o desejo, jogando-se com a proibiçao medíocre e velada da paixão, apenas consentida em forma de doença.
Essa a mensagem clara passada para milhares de pessoas que fazem da TV o espelho de suas emoçoes.
Se TV fosse baseada em IBOPE e pescasse realidade de fato, já começaria por mudar o título da novela. Mas pra que? onde fica o charme da hipocrisia? onde fica o suspense que joga com emoções de todas as ordens? onde fica a possibilidade de dar ao folhetim um sentido descartável digno? Não fica.
Mulheres ainda são tratadas como bichos estranhos, confusas, sem critério, objetos de controle de homens autores que provam nada sacarem de mulheres.
E quem não sabe de mulheres, ou nem chega perto, as tem como Deusas ou bruxas, ambas interditadas ou inatingíveis, o que dá no mesmo.
E quem nao sabe de Deusas e bruxas não pode falar em desejo, nem siquer tangenciar literatura sobre amores.Possíveis ou risíveis.
Vejo o medo como matriz.Vejo o terror do abandono como guia, vejo a ausencia da entrega como conduta de sobrevivencia.Isso o que passa e perpassa os textos e enredos tão medíocres da TV que parece ter o poder de formatar as mentes de seus escravos audientes.
E isso é tão velho que ouso repetir parte de um texto postado há anos atras, só pra refrescar pra alguns que ainda nem siquer delineamos nosso apetite,que dirá nosso posso de desejos.
E republico:
-No deserto da vida, é dificílimo ser cauteloso e conhecedor, se a propria sede nos embriaga de desejo e quer apenas morrer.
Saciar, só é sabido depois da experiencia. E essa é infinitamente perniciosa pra cada um, mesmo os que tem sede de Deus, como Jesus assim parecia ser.
E como transcender se não ultrapassarmos os limites? da propria paixão que nos incandesce engendra-se as cinzas que nos reduzirá, pra que possamos renascer a cada morte.
Se faz parte do tema todo esse enredo, por que teme-lo então e continuarmos morrendo de fome e de sede, em tantos níveis?"
Há que se descensurar as mulheres e reinventar o mito de EVA.
Sandra Paes - 01:03 PM CST [Link]