Sexta-feira, Outubro 31, 2003
Brumas radiosas
Venho tentando escrever. Nesses dias de intenso sol , miolos derretendo,teclado inacessível.Emissão de posts e outros textos extraviados pra endereço ignorado. Se tudo é efeito dessas brumas radiosas no espaço, interferencias sutís em satélites e seus mistérios, tenho minha antena parabólica atingida em cheio.
Estou à deriva sem conexão de coerencia e os pensamentos desconexos me revelam em segredo que um homem é em grande parte seu sonho e sua imaginaçao.Sem lógica construída ou comunicavel, vive no limbo, ou à margem, ou talvez apenas comece a descobrir que a vida não é o que lhe ensinaram que seria.
Sobra o Livro do Desassossego- de F.Pessoa, como cúmplice silencioso para esses momentos.
E percebo, cá entre nós, a falta que sempre me fez/faz um cúmplice silencioso.Melhor que os amores e amantes cheios de controles e tiras de amarras.
Detesto apegos e seus derivados.E sempre vi que os chefes são prisioneiros de seus comandos e o retorno de sua eficácia.Triste essa invençao de pesquisa de opinião. Desde que inventaram os Ibopes, todos entraram para o narcismo virtual e o pior é que acreditam nesse release.
Será que a explosão do sol não poderia queimar outras coisas sutís como toda essa parafernália chamada maia na mente de cada um?
Afinal, não seria nada mal ver o circo pegar fogo. Melhor do que incendio na California.
Sandra Paes - 04:14 PM CST [Link]
Terça-feira, Outubro 28, 2003
Espaço da discrença
A culpa é da gestalt. Com essa escola, quase um insight germanico sobre a "eureca",de repente, um clarão e todas as coisas ficam assim:-claras.
Há dias venho experimentando umas pequenas explosoes no cérebro, e com elas, visões internas sobre coisas, fenomenos, atitudes, lugares, pessoas.
E de repente, descubro que tudo se move em torno do que acreditamos ser. A parábola mística em torno de- a fé move montanhas, é revelada num glimpsi. O teclado para de dar todos os shifts e passa a apagar seus efeitos.Não dou bola e sigo escrevendo sem recursos de teclas especiais.
O que importa é a tentativa, quase vã, quase inócua de registrar a existencia do espaço da discrença.
Não, não me refiro à ausencia ou oposiçao a qualquer crença. Estou falando do espaço quase impossível da não crença.
Só se dá num momento gestaltico. Ao tentar delimita-lo, já desaparece. Algo como a partícula psy.
Se move com a presença do observador. É sensível a qualquer foco de atençao, por isso se torna quase impossível capta-la e estuda-la.Mas existe.
Ligo a TV, ainda debaixo desse estado de descrença acionado, nem sei como, e cercada por bolas luminosas que parecem gravitar em torno de meus olhos, nada penso, apenas fito a tela como um objeto qualquer.Não importa o que ali se passa, nem importa o que dizem, nem qual o jogo estão tentando passar, nem o "hook"de qual comercial etc..Ficam apenas as luzes e o flash de imagens, sem interpretaçao. A mente paralisada, congelada, não interpreta, não decodifica.
Não havendo o que ler e interpretar, não o certo, o errado, o bom, o feio, o imoral, o certinho, nada, apenas flashes de luzes que se traduzem em cores e som.
Sem o valor da crença, não há sentido.
Essa a eureca. Nós emprestamos a tudo, o que achamos que possa ser.Somos o autor decodificador de significados e nos mantemos presos a isso e chamamos a isso, vida, cultura, classes, oportunidades, erros,conquistas, beleza, crime, atração, medo, desejo, controle, poder, miséria, milagre, de o nome que quiser.
Nomeie e saiba que é sua invençao sustentada por milhares de outras mentes que ve igual e por isso nos identificamos e a isso chamamos amizade, identificaçao, parceiros, descendentes, família, sócios, homegenia, moda, patria, etc..
No difícil espaço da descrença ninguem quer estar.Deixa de ter sentido o ato de existir e fazer qualquer papel, interpretar qualquer script e em verdade, não sabemos como faze-lo, nem poderíamos.
Afinal já nascemos com sexo e destino marcado. E isso tambem é falso.Não, um rótulo básico,pra começar a viagem nesse lugar que chamamos de planeta terra.
Acrescido a isso vem a todas as demais crenças, ventre livre, cor de pele, casta, conquista de status, normas e dogmas, leis e controles de ir e vir, papeis e documentos pra se provar a existencia, o status social e economico e outros pra provar seu nível de saber- sua escolaridade.
Todos rituais de passagem com votos de aprovaçao, aceitaçao, louvor ou recusa.
E isso regulando os hormonios, as imagens nas fotos, as fotos nas publicaçoes, as publicaçoes fazendo a cabeça de tantos outros que dao fé no que leiem e no que dizem, especialmente se for de pública fé.
E nessa marcha sustentamos todos os jogos, todas as mesas e suas viradas, tambem controladas e bem administradas por grupos de ëxperts treinados so pra fazerem isso.
O espaço da descrença é primo da insustentavel leveza do ser e alem do mais tem um caso de amor impossível.
No mais, sobra a mesmice da tentativa de enganar a morte e sua fatalidade.
No fundo estamos todos brincando de sermos imortais, nem que seja por um décimo de segundo e jurar na beira de algum altar que äquilo é verdade.
Que teatro fantástico!
Sandra Paes - 02:42 PM CST [Link]